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Mau tempo para os grãos  

10/11/2017 - Estrela principal da recuperação econômica no começo deste ano, a safra de grãos será menor na próxima temporada, segundo as projeções oficiais divulgadas na quinta-feira. A produção será suficiente para gerar muitos bilhões de dólares de exportação e para atender o mercado interno, como tem sido há muitos anos, mas seu impacto em outros setores da economia deverá ser mais limitado. Grandes colheitas contribuem, geralmente, para a contenção de pressões inflacionárias, e esse efeito foi bem visível, em 2017, na moderação dos preços ao consumidor. Alimentação com baixo custo gera benefícios muito além da mesa das famílias. Quando o custo da comida evolui de modo favorável, sobra mais dinheiro para ser gasto em outros itens. Isso fortalece o consumo, gera maior demanda para a indústria e para o setor de serviços e favorece a multiplicação de empregos.

Seria imprudente, no entanto, prever para 2018 um cenário de inflação pior que o projetado até agora pelos especialistas. A formação de custos e as condições de oferta de vários produtos poderão ser menos favoráveis. Mas as pressões de alta de preços ainda serão contidas, se prosseguir o conserto das contas públicas, houver avanço na pauta de reformas e os mercados funcionarem num ambiente de confiança.

Se ocorrerem essas condições, perspectivas de continuidade na reconstrução da economia contribuirão para a estabilidade do câmbio. Assim será obtida uma condição importante para a moderação dos preços no mercado interno. Apesar da redução estimada pelos especialistas do governo, a safra de nenhum modo será desastrosa. Mas a ação dos políticos será, se o seu comportamento, em ano de eleição, dificultar ou impedir a continuação de medidas de ajuste e de saneamento das finanças do setor público.

A safra de grãos deverá ficar entre 223,3 milhões e 227,5 milhões de toneladas na temporada 2017-2018, com recuo de 6,2% a 4,4% em relação ao volume recorde produzido no período anterior, de 238 milhões de toneladas, segundo a estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Essa empresa é vinculada ao Ministério da Agricultura.

Os números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) são um pouco diferentes. Indicam uma redução de 8,9%, de 241,6 milhões para 220,2 milhões de toneladas. As quedas projetadas para a nova safra são atribuídas, nas duas pesquisas, às condições de tempo bem menos favoráveis que as da safra 2016-2017. O plantio, ainda em execução, já foi prejudicado pelo atraso das chuvas em algumas áreas. Condições meteorológicas menos favoráveis devem resultar em menor produção por hectare. Mas a influência efetiva do tempo ainda será medida com maior precisão mais à frente.

Alguns números da Conab podem dar uma ideia da composição da nova safra. O rendimento da soja, maior cultura, deve diminuir de 3.364 kg/hectare para 3.075. A perda de produtividade foi estimada com base em séries históricas e nos pacotes tecnológicos empregados nos últimos anos. Se as avaliações estiverem corretas, a produção da soja cairá de 114,1 milhões de toneladas para algo entre 106,4 milhões e 108,6 milhões de toneladas.

A colheita de milho na primeira safra poderá diminuir de 30,5 milhões para um volume entre 24,5 milhões e 25,9 milhões de toneladas. A segunda safra de milho, geralmente maior que a primeira, poderá passar dos 67,3 milhões de toneladas na temporada anterior para 67,2 milhões. A redução total ficará entre 4,9% e 6,3%. Também estão previstas colheitas menores de arroz, de feijão e de vários outros cereais e oleaginosas, mas sem risco de problemas sérios de abastecimento.

Novas estimativas poderão, nos próximos meses, apontar cenários um pouco diferentes. Além disso, as condições de mercado ainda poderão afetar o plantio da segunda safra do milho e os da segunda e da terceira do feijão, assim como a do trigo. As projeções mais seguras obviamente se referem à safra de verão. Com tempo desfavorável, os agricultores continuam fazendo sua parte. Se os senhores de Brasília fizerem a deles, o País continuará em recuperação em 2018.


Fonte: O Estado de S. Paulo
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