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A Distribuição Direta de Etanol Hidratado aos Postos  

19/06/2018 - Nesta análise mensal seguem os principais números e as reflexões tanto para o curto quanto para o longo prazo da cadeia agroindustrial da cana à partir dos fatos da segunda quinzena de maio e primeira de junho. Segundo a UNICA até o final de maio foram processadas 134,84 milhões de toneladas de cana, 20% a mais que na safra anterior. Em açúcar já foram produzidas 5,49 milhões de toneladas (praticamente 4% a menos) e em etanol 6,55 bilhões de litros, 52% a mais que a safra passada. O destaque vai para o hidratado, onde produzimos 4,77 bilhões de litros, 82% a mais que o mesmo período do ano passado. Isto é fruto de um mix de 65,5% para etanol, contra 54,9% no comparativo. A UNICA acredita que mantido este mix, o Brasil reduzirá sua produção de açúcar em mais de 5 milhões de toneladas no ciclo 2018/19. Precisa ser ainda mais que isto, como veremos adiante.

O ATR/tonelada está em 123,71% (4,53% maior) e a produtividade aferida pelo CTC em maio foi de 82,77 t cana/ha, 0,9% maior que a do ano passado e na safra até o momento foi de 81,64 t/ha, 2,01% superior ao mesmo período da safra anterior. Mas não é o que deveremos ver até o final da safra, quando se espera uma quebra de produtividade entre 5 a 15%, pela falta de chuvas e envelhecimento dos canaviais. O valor do ATR está abaixo das duas últimas safras, e sua recuperação depende da estratégia proposta aqui.

Mesmo com a greve o processamento de cana seguiu com bom rendimento, em virtude do clima extremamente seco. Impressiona a cana que vem sendo destinada para fazer etanol, corroborando com minha análise e pedido feitos aqui neste espaço desde o início do ano. A UNICA acredita que mantido este mix, o Brasil reduzirá sua produção de açúcar em mais de 5 milhões de toneladas no ciclo 2018/19. Precisa ser ainda mais.

Boa notícia veio da UNICAMP, onde uma equipe liderada pela Profa. Anete Pereira de Souza (Instituto de Biologia) descobriu onde se encontram no código genético da planta os genes responsáveis pela produção de açúcar, permitindo trabalhar para se produzir mais sacarose e resistências diversas em menos tempo de pesquisa (metade).

Entre noticias empresariais do mês, vale destacar a operação da Raizen e São Martinho para moer 1 milhão de toneladas de cana do grupo Furlan na usina de Santa Bárbara d´Oeste (SP), operação estimada em R$ 180 milhões. Triste saber que provavelmente a Usina Furlan será desativada, fez parte da minha história nos trajetos pela Rodovia Luiz de Queiroz, mas faz sentido pois aglomerações urbanas a cercaram.

A Tereos pretende construir mais sinergias entre suas quase 50 unidades produtoras em mais de 10 países. O processo teve fusão das 12 cooperativas que a compõe em apenas uma, com mais racionalidade, um polo de inovação próximo a Paris agregando toda esta área da empresa sob um mesmo teto, além de concentrar seus funcionários. A Tereos faturou 5 bilhões de Euros em 2017/18, com Ebitda de 600 milhões de euros.

A Copersucar no ciclo 2017/18 apresentou lucro liquido 42,7% menor, de R$ 147,2 milhões. A receita liquida foi de R$ 28,6 bilhões, 1% maior. Foram processadas 85 milhões de toneladas (2,3% a menos), que geraram 4,5 milhões de toneladas de açúcar, sendo que destas 2,9 milhões foram exportadas. De etanol foram produzidos 4,3 bilhões de litros. Teve bom crescimento a operação da Eco-Energy, que chegou a quase 10 bilhões de litros de etanol e faturamento de US$ 4,4 bilhões. Acreditam que a safra atual terá 555 milhões de toneladas e a produção de açúcar será de 28 milhões de toneladas, 8 milhões a menos que na safra anterior. Esperam moer 83 milhões neste ano.

A Zilor anunciou prejuízo líquido na safra 2017/18, de RS 43 milhões, graças a preços mais baixos, peso da variação cambial e cálculo do valor biológico. Sem os efeitos financeiros, o lucro seria de R$ 16 milhões. O faturamento foi de R$ 1,9 bilhão (3% menor) e o Ebitda de R$ 466,8 milhões (15% menor). A Biorigin já está faturando quase R$ 380 milhões, sendo um negócio de amplo crescimento no grupo.

Em relação aos fatos e números do açúcar, a Organização Internacional do Açúcar (OIA) elevou novamente, graças à Índia e Tailândia, a estimativa de produção (2017/18), pulando de 179,3 milhões para 185,21 milhões de toneladas, 10% acima da safra 2016/17, um volume impressionante, sendo 5 milhões a mais na Índia (31,4 milhões no total) e 2 milhões na Tailândia (14,35 milhões total), jogando o superávit para 10,51 milhões de toneladas, pois o consumo deve ser de 174,7 milhões de toneladas. Muito doce o mundo, pelo menos neste sentido.

Interessante analisar a concentração de compradores de nosso açúcar. Em 2017 a Wilmar foi a maior compradora de açúcar do Brasil, com 5,45 milhões de toneladas (20,81% das exportações). A Alvean vem na sequência com 4,75 milhões de toneladas (18% do total). As duas embarcam quase 40% das nossas exportações. Seguem a Sucden com quase 2,5 milhões de toneladas e a Copa Shipping e Ed&F Man com 2,15 milhões cada. A Dreyfus caiu para 1,4 milhões de toneladas. Deste total, quase 76% é por Santos (cerca de 20 milhões de toneladas) e Paranaguá tem quase 19%, com perto de 5 milhões de toneladas.

Muitas usinas correram para vender açúcar quando o dólar encostou em 3,90 reais, e ao meu ver foi adequado. No açúcar minha aposta é de alta, pois esta produção toda mundial, a este baixo preço, trará estragos grandes em nossos concorrentes, que não contam com o hidratado como válvula de escape e único arreio de sustentação. Além disto, temos as perdas na safra, que agora pode ficar em apenas 550 milhões de toneladas no Centro Sul, provável manutenção do preços do petróleo nos atuais níveis e aumento do consumo de hidratado, com o mix de uso de cana indo fortemente nesta direção. Penso que a desvalorização do real foi maior que a devida e que a moeda tende a se valorizar, também influenciando os preços do açúcar para cima. Minha aposta hoje é algo perto de R$ 3,45 para cada US$ em dezembro.

Em relação aos fatos e números do etanol, segundo a ANP o consumo de combustíveis cresceu 5% em abril, atingindo 11,1 bilhões de litros, e no primeiro quadrimestre cresceu 2%. Neste, o diesel cresceu 4,2%, a gasolina caiu 9,1% e o hidratado cresceu 40,8%. No total, o Ciclo Otto (gasolina e/ou etanol) caiu 1,6% no quadrimestre. Com a crise dos transportes, as vendas de etanol hidratado pelas usinas em maio ficaram em 1,88 bilhão de litros, contra 2 bilhões de maio de 2017. Creio que devem explodir em junho, com a necessidade de recarregar as distribuidoras, os postos e os tanques dos carros, além da precificação favorável.

Na safra 2018/19 a Bioagência estima que nosso déficit de anidro (exportações menos importações) será de 400 milhões de litros. Importações seriam de 1,7 bilhão de litros, vindos do etanol de milho dos EUA. E por falar em milho, é provável que o Brasil já use quase 2 milhões de toneladas de milho para fazer etanol neste ano, crescimento vigoroso.

A flexibilidade da política de preços da Petrobras deve ser mantida e que a equipe que substituiu Pedro Parente consiga se impor a tentações de populismo. Para que os preços não flutuem tanto, a discussão deveria caminhar para a cobrança de impostos flexíveis sobre combustíveis, quando seus preços internacionais sobem, os impostos caem e vice-versa, deixando preços um pouco mais estáveis ao consumidor final.

Há expectativa que as regulações todas do RenovaBio estejam aprovadas e em vigor até o final deste ano. Uma delegação do Governo esteve nos EUA buscando apoios e parcerias. Foram divulgadas as metas de redução de carbono no Renovabio, que serão responsabilidade das distribuidoras. O Biodiesel também vai de 10 para 15% de mistura até 2024, criando muitas oportunidades.

No âmbito do debate da flexibilização de venda de etanol, podendo ser feito direto das Usinas aos postos, vamos a algumas reflexões, pois o tema ganhou corpo com o parecer do CADE recomendando esta liberdade e com a greve dos caminhoneiros.

A Plural divulgou interessante estudo onde é estimado um aumento de custos para R$ 877 milhões caso seja aprovado. Feito pela empresa Legio, o custo estimado para transporte de etanol pelas distribuidoras é de R$ 730 milhões por ano. A Plural vê outras desvantagens: iriam para as rodovias parte do que hoje é movimentado em dutos e trilhos, além do uso de caminhões menores e as usinas teriam que construir frotas próprias que seria apenas para etanol, quando os caminhões das distribuidoras levam três produtos, e uma possível perda de escala elevaria os custos da distribuição dos outros produtos. A mudança levaria a maiores tempos de carregamento, descarregamento e esperas, daí a maior ineficiência. A Plural também estima que as usinas agregariam custos de R$ 410 milhões/ano para internalizar esta função. Não foram considerados a retirada das margens das distribuidoras e de seus custos operacionais e administrativos. Este importante estudo considerou uma mudança total de modelo, quando não é isto que ocorreria com uma possível flexibilização.

Já os números de outro estudo feito pelo ESALQ-LOG são um pouco distintos. Segundo esta organização, em 2017 para se levar o etanol em SP das usinas aos postos, passando pelas distribuidoras, o custo foi de R$ 89,09 por metro cúbico. Se a comercialização fosse direta, o custo seria de R$ 60,77 por metro cúbico.

A UNICA teme que esta venda direta possa dificultar a implementação do RenovaBio, uma vez que vai exigir mudanças na cobrança de impostos hoje pagos pelas distribuidoras: PIS, Cofins e o ICMS. Segundo a UNICA, o PIS e o COFINS do hidratado são recolhidos pelo produtor (R$ 0,13 por litro) e pelo distribuidor (R$ 0,11 por litro). Nas vendas que não passarem pelo distribuidor, a carga tributária seria ou cobrada das usinas (360 unidades) ou dos postos (40 mil). A mudança impactaria também no volume comercializado pelas distribuidoras que são os responsáveis para cumprir as metas de descarbonização via a comercialização de Cbios (certificado de redução de emissões de carbono). Ressalta também que usinas podem ter distribuidoras e vender via estas aos postos, portanto que este modelo já existiria. Sim existe, mas talvez o problema não seja regulatório, mas sim seja da infraestrutura mínima necessária para realizar a atividade.

Sempre fui fortemente favorável a esta ideia por permitir mais criatividade, liberdade econômica, e a convivência de distintos modelos de canais de distribuição seria um gerador de benchmarks, inovação e eficiência, apesar de apresentar riscos, como toda atividade. Defendo também a ideia de usinas e cooperativas montarem postos (lojas de fábrica) como instrumentos de negócios e de comunicação com o consumidor final, podendo usar suas marcas.

De forma alguma acredito que a distribuição direta tomaria o mercado, pois o elo distribuidor (atacadista) tem enorme relevância em qualquer atividade de negócio, por sua escala, eficiência operacional e importância, além de contratos de exclusividade com suas bandeiras varejistas (postos). Mas sim tomaria uma parte menor onde fosse bem mais eficiente pela proximidade e pelo modelo de negócios, ou seja, algo bem regionalizado, que beneficiaria as cidades que cercam usinas. Não debrucei ainda para pensar em soluções para a forma de cobrança de impostos e da geração dos (CBios) para o RenovaBio, duas coisas que não podem ser ameaçadas de forma alguma, mas tenho certeza que há cérebros maravilhosos no setor para encontrar mecanismos de permitir a liberdade e a criatividade sem danos à arrecadação e principalmente, ao RenovaBio. Caso não exista solução, a distribuição direta deve ser sacrificada em nome do RenovaBio, com tristeza de minha parte...

Não estudei se isto é possível, mas fica aqui como sugestão em tempos onde precisamos de mais pesquisa e inovações: a arrecadação com a tarifa de importação do etanol americano (que não faz parte do orçamento púbico) poderia ir, em parte ou total, para um fundo de pesquisa do setor de cana, ou ser colocada na FAPESP para ser usada exclusivamente em projetos de cana visando aumento da inovação e competitividade.

Finalizando... qual seria a minha estratégia com base nos fatos... ou onde eu arriscaria agora em junho/julho: não temos outra alternativa neste momento do que continuar colocando o máximo possível de cana para fazer hidratado. O máximo possível, nem que a velocidade de moagem tenha que ser reduzida, afinal, com menos cana deve sobrar capacidade de processamento ao longo do ano.

Marcos Fava Neves
Professor Titular da Faculdade de Administração da USP em Ribeirão Preto, é especialista em planejamento estratégico no agronegócio
Os artigos assinados são de responsabilidade de seus autores, não representando,
necessariamente, a opinião e os valores defendidos pela UDOP.
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