Quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019
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A Sustentabilidade no Setor da Bioenergia

Podemos dizer com toda a segurança e propriedade, que a vasta gama de produtos procedentes do cultivo da cana-de-açúcar é uma das maiores evoluções no setor sucroalcooleiro, que hoje, podemos chamar de setor da bioenergia. Muito se lutou para chegar até aqui.

O ímpeto de modernização que tomou conta do campo, em meados da segunda metade do século XX, trouxe muitos benefícios econômicos que facilitaram descobertas relevantes e trouxe também muitos transtornos para o meio ambiente e para as comunidades que viviam em função dos trabalhos na produção canavieira.

Em apenas um quarto de século, a cadeia de produção deixou de ser a estrutura grosseira que sobreviveu aos trancos e barrancos durante 450 anos, cedendo espaço para indústrias modernas, nos quesitos tamanho físico e capacidade de produção.

É notória a ação do homem, com conseqüências negativas em função da busca por essa evolução. Os malefícios socioambientais são evidentes e oriundos desse processo, em quaisquer setores da economia que um dia planejaram expandir-se.

O setor da bioenergia, especificamente, há muito vem se adequando as mudanças necessárias para a conciliação entre homem e meio ambiente, cujo entendimento dessa harmonização resultou em mudança de conceitos, que nos facilitou entender a real ligação entre eles. Somos parte integrante um do outro, intrínsecos e logo, vulneráveis. Os cuidados para com um, refletem no bem estar de ambos.

Como exemplo, podemos citar ações concretas e relevantes, tais como:

EMISSES DE GASES DE IMPACTO GLOBAL
Por causa do elevado rendimento fotossinttico observado na produo da cana-de-acar e do processo eficiente para sua converso em biocombustvel, a utilizao de etanol obtido dessa matria prima permite reduzir, de forma importante, as emisses de gases de efeito estufa, em comparao com o uso do combustvel fssil (gasolina), para um mesmo efeito til final em veculos.Essa contribuio para a reduo do cmbio climtico um dos aspectos mais importantes associados ao etanol de cana-de-acar. O carbono liberado para a atmosfera corresponde soma do carbono de origem fotossinttica, absorvido durante o crescimento da cana e depois liberado em quatro etapas - queima da palha, fermentao, queima do bagao e queima do etanol nos motores. Logo, se compararmos o aporte lquido das emisses fsseis da ordem de 309 kg de CO2 por mil litros de etanol produzido, com a emisso estimada para a gasolina de 3.009 kg de CO2 e assumindo idntico desempenho em termos de uso final, resulta uma reduo da ordem de 90% nas emisses de carbono.

USO DOS RECURSOS HDRICOS E DISPOSIO DE EFLUENTES RECURSOS HDRICOS
Do ponto de vista dos recursos hdricos, as condies particularmente favorveis nos pases das regies tropicais midas, como o caso do Brasil, com regime pluvial farto e bem distribudo, permitem que a maioria das culturas se desenvolva sem irrigao. Dependendo do clima, a cultura da cana requer de 1.500 mm a 2.500 mm de lmina d'gua adequadamente distribudos (um perodo mido e quente para crescimento e um perodo seco para maturao e acmulo de acar) durante o ciclo vegetativo. No Brasil, a irrigao na cultura da cana, praticamente no utilizada na regio Centro Sul, sendo adotada apenas nos perodos mais crticos na regio Centro Oeste e de modo um pouco mais frequente na regio Nordeste, sob o conceito de 'irrigao de salvao', aps o plantio da cana, para garantir a brotao em condies de dficit hdrico e como 'irrigao suplementar', feita com diferentes lminas de gua nas pocas mais crticas do desenvolvimento do vegetal. Acredita-se que, a medida que as reas com menor disponibilidade hdrica passem a ser ocupadas com canaviais, a irrigao poder se mostrar interessante para manter a produtividade agrcola, devendo, nesse caso, ser efetuada no mbito da legislao vigente. Atualmente, segudo a Embrapa, as lavouras de cana no apresentam impactos na qualidade da gua.
No mbito do processo industrial o consumo da gua ocorre em quatro processos: lavagem da cana, condensadores na evaporao e vcuos, resfriamento de dornas e condensadores de lcool. Com a racionalizao de consumo de gua (reutilizaes e fechamentos de circuitos e algumas mudanas de processo, como limpeza a seco e a reduo da lavagem da cana, por conta do corte mecanizado), a captao tem sido reduzida de modo significativo. Segundo dados divulgados pela Secretaria do Meio Ambiente do Estado de So Paulo, relativos safra 2008/2009, 53% das agroindstriais paulistas signatrias do documento chamado Protocolo Agroambiental consomem entre 0,7 a 1,0 m por tonelada de cana.

DISPOSIO DE EFLUENTES
Os principais efluentes lquidos observados na produo de etanol e seus sistemas de tratamento so apresentados na forma de gua de lavagem da cana, cujo tratamento a decantao e lagoas de estabilizao para o caso de lanamento em corpos d'gua, gua dos condensadores, tratada nos tanques de resfriamento com recirculao ou lanamento, guas de resfriamento de condensadores de lcool, tambm tratada nos tanques de resfriamento para retorno ou lanamento e por fim vinhaa e guas residurias, que so aplicados na lavoura de cana. A fertirrigao, mediante a qual se aplica a vinhaa nos canaviais, a principal forma de disposio final da carga orgnica, com vantagens ambientais e econmicas. Por sua importncia, cabe analisar um pouco mais a questo da vinhaa. Produzida razo de 10,85 litros por litro de etanol, constitui o mais importante efluente lquido da agroindstria da cana. Em sua composio, apresenta teores elevados de potssio e de matria orgnica, mas relativamente pobre nos demais nutrientes. No incio do Pralcool, a vinhaa era lanada diretamente nos rios, com graves problemas ambientais, atenuados com o uso das bacias de infiltrao e resolvidos a partir de 1978 com os sistemas de fertirrigao. Algumas regies do Estado de So Paulo, tradicionais produtoras de cana, encontram-se em reas ambientalmente vulnerveis, com pontos de recarga de importantes aquferos paulistas, considerando tais condies, a legislao ambiental referente ao uso da vinhaa tem evoludo. A norma tcnica divulgada pela Secretaria do Meio Ambiente do Estado de So Paulo sobre os critrios e procedimentos para aplicao, movimentao e disposio da vinhaa em solo agrcola, estipula medidas de proteo das guas superficiais e subterrneas, exigindo impermeabilizao dos tanques de armazenamento e canais de distribuio de resduo locais passveis de aplicao e a dose mxima tambm estipuladas.
Nessa direo, so interessantes as medidas que vm sendo adotadas para a proteo dos mananciais, em particular com o progressivo abandono do cultivo da cana nas denominadas APP (reas de preservao permanente), cerca de 8% da rea cultivada, o que permitir sua recuperao do modo espontneo ou a recomposio com reflorestamento, principalmente nas matas ciliares, com efeitos relevantes sobre a biodiversidade.

USO DE DEFENSIVOS AGRCOLAS
Na produo de cana, so usados regularmente produtos qumicos como inseticidas, fungicidas, herbicidas e agentes maturadores ou retardadores de florescimento, em nveis que podem ser considerados baixos em comparao mdia observada em outros cultivos de importncia. A menor utilizao desses defensivos decorre de procedimentos de combate s doenas, principalmente por meio da seleo de variedades resistentes, em programa de melhoramento gentico e sobretudo pela adoo de mtodos biolgicos, que emprega parasitides ou predadores para controlar pragas na agricultura. Esse mtodo apresenta vantagens econmicas em relao ao uso de inseticidas convencionais, pois no faz uma aplicao indiscriminada de produtos qumicos e mantm as pragas em um nvel mnimo tolerado. No combate s ervas daninhas so utilizados herbicidas, entretanto com a progressiva adoo da colheita de cana crua, a parte da palha que permanece sobre o solo promove uma supresso na germinao e na emergncia de plantas invasoras, que vem diminuindo de maneira progressiva a utilizao de herbicidas.

MUDANA DO USO DA TERRA E DESMATAMENTO DA AMAZNIA
Recentemente, duas questes ambientais relacionadas com a produo de etanol de cana-de-acar tem sido apresentadas: as emisses de gases de efeito estufa associada mudana do padro do uso do solo, com a perda de sua cobertura original, quando da implantao dos canaviais e o processo indireto de desmatamento causado pela ocupao das reas de pastagens pela cana, que determina a transferncia dos rebanhos para as fronteiras agropecurias, onde seriam formadas novas reas de criao. Com certeza so temas complexos, ainda em discusso, mas a seu respeito podem ser adiantadas algumas informaes importantes. Existe ainda muita incerteza quanto a magnitude desse efeito, porque os teores de carbono no solo em condies de equilbrio dependem de inmeros fatores. Alm disso, no caso do etanol no Brasil, pouco provvel que possam ser associadas perdas de cobertura florestal produo de etanol, j que a expanso da lavoura canavieira tem ocorrido basicamente em reas antes ocupadas por pastagens de baixa produtividade ou culturas anuais destinadas em grande parte exportao, como a soja. Outro aspecto a ser levado em conta o efeito do incremento da colheita de cana crua, na qual maior quantidade de palha e portanto, de carbono incorporada ao solo. A outra questo, o desmatamento indiretamente induzido pela expanso da cultura da cana-de-acar, comporta um argumento difcil de sustentar na crtica ao etanol, pois h poucos indcios dessa causalidade, que, entretanto, merece ser comentada. A perda de cobertura florestal na Amaznia brasileira tem diminuido ultimamente, com base nos resultados do acompanhamento por imagens de satlites. Estima-se que 17% da cobertura original da floresta amaznica foram derrubados, principalmente para explorao madeireira, produo de carvo vegetal para siderurgia e dando origem a terrenos ocupados por sistemas extensivos de criao de gado bovino de corte e plantaes de soja. A rea desmatada na Amaznia brasileira durante a ltima dcada de 19 milhes de hectares, uma superfcie cerca de dez vezes maior do que a expanso observada na rea plantada em cana para produzir etanol no mesmo perodo. A produo de etanol no implica desmatamento, pois o Brasil possui terras disponveis para uma expressiva expanso da produo agrcola, podendo produzir de forma sustentvel alimentos e bioenergia, sem precisar abrir mo de seu patrimnio florestal.

Fonte: Bioetanol de Cana-de-Acar: Energia para o Desenvolvimento Sustentvel, organizao BNDES e CGEE, Rio de Janeiro, 2008.
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