Vergonha antiga  

13/03/2017 - Estamos acompanhando, mais uma vez, a vergonhosa situação das rodovias do Centro-Oeste no momento crucial do escoamento da safra de grãos de 2017. Ano após ano, essa tragédia se repete sem que providências adequadas sejam tomadas. Os produtores rurais investem em tecnologia e em gestão, ampliam as safras acima de qualquer expectativa e depois assistem, impotentes, ao descalabro de caminhões encalhados, sem que seus motoristas possam sequer se alimentar convenientemente, sem falar no problema da higiene pessoal.

Com isso, as exportações ficam prejudicadas e a renda despenca. Neste ano teremos que exportar mais de 60 milhões de toneladas de soja e 25 milhões de toneladas de milho. Esse movimento espetacular precisa ter um ritmo de escoamento bastante eficiente para, com nossa infraestrutura de portos também insuficiente, dar conta do recado. A escandalosa fila de caminhões atolados coloca em risco essa operação que, se não for completada em tempo e hora, vai prejudicar não apenas os agricultores, com a perda da renda, mas também o País, com menor saldo comercial.

Isso sem falar no abastecimento interno de granjas de aves e suínos espalhadas pelo Nordeste, Sul e Sudeste, cuja dependência de grãos da região central é enorme. Portanto, esse descalabro destrói empregos e renda nas diversas cadeias produtivas que derivam da atividade rural: a indústria de alimentos, a de embalagem, a distribuição no atacado e no varejo, o transporte, a armazenagem, o crédito. E as ações correlacionadas, nas oficinas mecânicas, na fabricação de peças de reposição, de pneus. E no estado de espírito de todos que são diretamente prejudicados.

Não é um tema novo ou surpreendente. Ao contrário: a falta de logística vem de anos de pouco caso e desdém governamental.

Mesmo assim, gente corajosa que saiu do Sul, do Sudeste, do Nordeste, deixando para trás sua história, sua família e seus bens, foi para a fronteira agrícola para empreender e crescer. Os números por trás disso são impressionantes, mesmo para analistas estrangeiros que conhecem o setor rural no mundo todo.

De 1990 para este ano, a área plantada com grãos cresceu 57%, enquanto o volume de produção aumentou 278%. Só essa cifra já é assombrosa, mas por trás dela está o maior valor: hoje cultivamos 59 milhões de hectares com grãos no Brasil todo, e, se tivéssemos a mesma produtividade de 1990, seriam necessários mais 84 milhões de hectares para colher essa safra recorde. Quer dizer: poupamos do desmatamento esses 84 milhões de hectares de florestas, cerrados ou quaisquer outros biomas, numa agricultura extremamente sustentável.

Além do empreendedorismo de brasileiros, o que está por trás desse sucesso inegável? Basicamente a tecnologia gerada em nossos organismos de pesquisa e universidades, públicos e privados. No período referido (e a escolha de 1990 como ponto de partida se deve ao desastre do Plano Collor para o campo), a produtividade agrícola cresceu 3,4% ao ano, muito maior que a média global, que foi de 1,1%.

Políticas públicas eventuais também ajudaram, como o Moderfrota, o aumento de recursos para crédito rural, a lei de biossegurança, os novos papéis de comercialização (LCA, CDCA, CRA), e também foi fundamental o crescimento da demanda por alimentos nos países emergentes, cujas populações e renda cresceram mais do que nos desenvolvidos.

E ainda podemos fazer muito mais. Basta um número para reafirmar isso: a área total aqui cultivada com todas as culturas não chega a 86 milhões de hectares, cerca de 10% do território nacional, do qual 61% ainda são cobertos por florestas.

O campo pode gerar muito mais riqueza e empregos no Brasil, desde que se resolva essa vergonha da logística e da infraestrutura. E desde que se organize um seguro rural digno desse setor, desde que se abram mais mercados com valor agregado às commodities, desde que se invista mais em tecnologia, em defesa sanitária e em segurança no campo, outra escandalosa situação.

*Artigo originalmente publicado no jornal O Estado de S. Paulo ontem (12).

Roberto Rodrigues
Ex-Ministro da Agricultura e Coordenador de Agronegócio da FGV
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