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A arte de se recriar, de ressurgir  

09/03/2016 - Do dicionário informal, reinventar: criar algo a partir do que já existe, transformar a si, a algo ou outrem, transformar o cotidiano, sair da rotina. Por si só, esses significados já nos fazem viajar para um universo de oportunidades e novos desafios. Estamos, diariamente, nos reinventando ou, pelo menos, deveríamos. O verbo serve tanto para nós, pessoas físicas, como para as corporações.

E, para o setor sucroenergético, não é diferente. Temos que nos recriar a cada novo amanhecer, sempre voltados para uma meta única, mola propulsora do capitalismo: lucro! Na história de 500 anos do setor, desde que o primeiro pé de cana que por aqui chegou, muitas reinvenções foram necessárias. E todas elas foram implementadas para o bem maior, aumentar a produtividade e, por conseguinte, os rendimentos (entendam lucro), oriundos dessa cadeia que movimenta um PIB milionário. Mas, voltando à origem etimológica do verbo reinventar, encontramos a junção do prefixo re-, "de novo", à palavra invenção.

Se reinventar, então, requer olhar o passado, corrigir os erros e mirar o futuro, sempre com olhos para o resultado final. Aí é que, talvez, se encontram os principais problemas quando pensamos o processo de reinvenção de nosso negócio. Mirar o futuro, muitas vezes, não é tarefa fácil, pois requer, acima de tudo, não apenas um exercício futurístico embasado na atual realidade, mas uma direção, um caminho, uma sinalização de aonde queremos chegar.

Aqui vale sempre a máxima do "para quem não sabe aonde quer ir, qualquer lugar está bom", e, assim, muitas pessoas, empresas e setores vivem o marasmo das rotinas intermináveis, que não ligam nada a coisa alguma, mas que nos enchem da sensação de estarmos dando o máximo, quando, na verdade, estamos correndo na esteira. O que falta, hoje, é o rumo de aonde queremos chegar. E, aqui, percebo claramente a falta de uma política transparente, com metas bem definidas, norteando qual será nosso papel no curto, médio e longo prazos.

O governo, detentor do poder que lhe é concebido pelo voto, peca ao não delimitar o papel de cada setor estratégico na matriz energética brasileira. E essa falta de rumo, com certeza, gera a instabilidade que vivemos, como se participássemos de uma corrida sem um ponto de chegada, ao bom estilo Forrest Gump. Nesse contexto, podemos aprender muito, e nos reinventar, com nossos irmãos mais ricos do norte, os "americanos". Até uma década atrás, eles engatinhavam no assunto etanol, vinham aqui aprender conosco e ainda tinham que ouvir de ninguém menos que o então presidente Lula que "milho era para encher o papo de galinha e cana-de-açúcar era para abastecer o mundo".

Pois bem, há pelo menos três anos, eles engordaram as galinhas e ainda ultrapassaram o Brasil, deitado em seu berço esplêndido na produção de etanol, ganhando o status de maior produtor mundial do biocombustível. Por que isso foi possível? Por um motivo muito claro: lá, energia é estratégico, e as metas de produção são claras, factíveis e requerem esforços, o que fez com que os produtores de milho se reinventassem e construíssem usinas eficientes para atender a um mercado que fora criado pelo próprio governo.

Por aqui, somos obrigados a conviver com oscilações e políticas altamente deficientes e que nos trazem verdadeiro temor jurídico. Os investimentos, então, ficam de escanteio, à espera de um direcionamento que nos traga um norte. Enquanto isso, perdemos dezenas de usinas e assistimos, de camarote, ao derretimento da competitividade de nosso segmento. Como se não bastasse a falta de norte, políticas populistas ainda promoveram o congelamento artificial dos preços da gasolina, que trouxeram como reflexo, além do segundo maior escândalo de corrupção do mundo (Petrobras), o desmonte de um setor que era tido como a mola propulsora do agronegócio brasileiro.

Se aprofundarmos um pouco mais, podemos ver até a frustração desse segmento que se apresentou, por anos, como a alternativa energética através da bioeletricidade e que também teve sua "reinvenção" parada por falta de rumo. Assim, a conjugação do verbo reinventar para nós está intimamente ligada aos mandos e desmandos do governo. Precisamos, de uma vez por todas, saber, claramente, qual a fatia da matriz energética nos é garantida no médio prazo, para citar apenas este; como o governo trabalhará a oscilação de preços do mercado mundial do petróleo; quanto o governo está disposto a custear as externalidades tão bem apresentadas por nosso setor no quesito geração de bioeletricidade.

Trabalhando com o cenário de que não teremos respostas satisfatórias para essas e tantas outras indagações tão necessárias para nosso futuro, temo dizer que viveremos mais do mesmo, sem grandes progressos ou até com grandes perdas para o setor, para os milhões de brasileiros e brasileiras que vivem dignamente dessa pujante cadeia e dos milhares de municípios que têm nas usinas seus maiores arrecadadores de divisas, que dão sustentação, inclusive, aos projetos sociais propostos por esse mesmo governo.

No cenário em que as respostas surgirão e nos trarão os rumos necessários para crescer, podemos esperar que esse setor volte a se reinventar, volte a crescer, a transformar seu cotidiano e sair da rotina, levando consigo esse universo de oportunidades que proporciona. A reinvenção de nosso setor está intimamente ligada a práticas que, por anos, tenho defendido, juntamente com outros consultores e executivos. Devemos voltar nossos olhos, mais uma vez, para onde definitivamente são produzidos o açúcar, o etanol e a bioeletricidade que tanto almejamos: ao campo.

Reinventar é trabalhar e produzir mais, com o mesmo, ou até com menos. E isso requer investimentos em pesquisas, em novas tecnologias, em sistemas de gestão e de produção. Até 2008, trabalhávamos forte nessas frentes, mas, por fatores como os citados anteriormente, tiramos o pé do acelerador, uma vez que a sinalização era clara para um outro lado, para o Pré-Sal, de onde, acreditava-se, viria a salvação do Brasil, e por onde, hoje vemos, se sustentou um esquema que aplicou um dos maiores golpes da história, levando com ele um prejuízo sem precedentes para o setor sucronergético.

Hoje é mister a reinvenção de nosso setor. Precisamos de um sistema de gestão mais eficaz. Precisamos de metas claras, governamentais e setoriais. Precisamos qualificar mais e mais mão de obra para essa nova realidade. Precisamos, de uma vez por todas, acreditar que tecnologia é investimento e não gasto. Precisamos aplicar as tecnologias desenhadas no passado e que hoje não são replicadas e postas em prática, gerando mais e mais perdas em nossos canaviais... Aproveitarmos o atual momento, onde, pelo menos para nós, um horizonte de melhorias pode ser avistado, será o divisor de águas daqueles que sobreviverão, pois se reinventarão ou sucumbirão, pois foram engolidos pelo caminho...

*Artigo originalmente publicado na Revista Opiniões, edição Janeiro/Março de 2016, número 47.

Antonio Cesar Salibe
Presidente executivo da UDOP
Os artigos assinados são de responsabilidade de seus autores, não representando,
necessariamente, a opinião e os valores defendidos pela UDOP.
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