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S a sacarose salva...  

20/06/2017 - H mais de dez anos, o setor canavieiro passa por uma grande transio de tcnicas e procedimentos. Nesse perodo, por exemplo, samos de 25% de colheita mecanizada para prximo a 99% nas principais regies produtoras do Centro-Sul. O uso do fogo para limpeza da cana tambm foi praticamente banido, e, hoje, o maior volume da cana moda nas usinas de cana sem queima prvia, a chamada cana crua - uma matria-prima totalmente diferente daquela que era entregue nas usinas anos atrs.

medida que a mecanizao da colheita cresceu, observou-se um significativo aumento das impurezas vegetais e minerais e uma queda acentuada dos teores de sacarose na matria-prima, conforme demonstra o quadro 1 - Colheita mecanizada e qualidade da matria-prima.



No mesmo momento em que isso ocorreu, notaram-se outros importantes acontecimentos, como um enorme desgaste das mquinas colhedoras, o aumento das perdas de cana no campo, maior arranquio de soqueiras de cana, reduo da longevidade dos canaviais, aumento significativo da compactao do solo e, principalmente, uma significativa perda de faturamento.

Tudo isso est interferindo no resultado final das usinas, com significativas quedas nos valores de ATR e de produtividade agrcola, e o pior, com o aumento dos custos de produo. Alm disso, o problema se estende para dentro da indstria, onde a reduo na extrao e o excessivo desgaste dos componentes da fbrica so muito expressivos, fato esse que j foi detectado pelo aumento dos gastos com manuteno industrial e reduo da vida til de equipamentos e peas. H visveis prejuzos em moendas, bombas, dutos e, principalmente, nas caldeiras afetadas pelo cloro, enxofre e slica, que vm das impurezas.

Na rea agrcola, h ainda outros prejuzos relacionados com a reduo nas densidades de cargas no transporte de cana e com o aumento do custo da tonelada colhida pelas colhedoras que, em sua grande maioria, trabalham fora das especificaes dos fabricantes, com sobrecarga de potncia e velocidade, levando a um maior nmero de quebras e paradas frequentes.

O quadro 2 - Necessidade de transporte em funo do aumento das impurezas vegetais na matria-prima -, mostra os efeitos das impurezas vegetais na densidade de carga e na quantidade de cana que se transporta em um dia de trabalho de um rodotrem. Fica evidente que, quanto mais impurezas vegetais, maior ser a necessidade de equipamentos, pois h significativa reduo de peso na carga mdia.

Pesquisas da Consultoria Assiste constatou que, com 8.000 horas trabalhadas (cerca de 4 anos), as colhedoras j gastaram, em reparos e manuteno (RM), o equivalente a 1,5 mquina nova. Os gastos mdios anuais com RM se aproximam de R$ 350 mil por mquina. Na Austrlia, os gastos so trs a quatro vezes menores, pois l as mquinas no trabalham no mesmo ritmo. Aqui, no Brasil, as usinas e grandes produtores foram demais as mquinas para aumentar a produtividade e reduzir custos.

As frotas nem sempre esto dimensionados na exata necessidade de colhedoras e raramente possuem mquinas em stand by. Quando, no meio da safra, a cana comea a apresentar reduo de suas produtividades, os produtores comeam a forar ainda mais as mquinas para manter a moagem diria. nesse momento que acontecem os maiores problemas, como o aumento significativo de arranquio de soqueiras, pisoteio excessivo, alm do aumento de perdas de cana e de impurezas na matria-prima.

Quanto mais foram as mquinas, mais elas quebram e menos produzem. Como consequncia, teremos a um aumento de gastos com RM, atingindo, por ano, mdias equivalentes a um tero do valor de uma mquina nova e, dependendo da idade das mesmas e da qualidade da manuteno, as quebras e os gastos se tornam ainda maiores.

Como resolver isso e ainda ganhar sacarose?

A resposta a seguinte: as empresas, j no planejamento inicial, precisam fazer um dimensionamento de necessidades de colhedoras e transbordos pensando nos momentos mais crticos da safra e no na mdia de rendimentos obtidos no ano anterior. Depois, precisam aprender a pensar que o teor de sacarose pode ser maximizado com maior limpeza da cana. Trabalhar fora das especificaes dos fabricantes tentando extrair muito mais das mquinas est levando aos produtores perdas "invisveis" enormes.

muito comum se encontrarem reas com tiros curtos, no sistematizadas e niveladas adequadamente, mquinas trabalhando com baixa rotao nos extratores de limpeza da cana, pensando em economia de energia. Alm disso, comum tambm os operadores acelerarem as colhedoras acima dos 4 km/hora at em cana de menor produtividade. Isso s aumenta o prejuzo dos produtores, pois colhem uma matria-prima de qualidade inferior, arrancam touceiras, aumentam o custo de manuteno e, o pior, reduzem significativamente as produtividades agrcolas.

Os erros de planejamento de colheita e as perdas geradas por no respeitar as caractersticas das variedades so outros problemas que esto trazendo graves prejuzos. Muitos produtores enviam alto ndice de matria verde (partes da cana que no so colmos) para as usinas pensando em vantagens com ganhos de peso, mas se esquecem de que o ATR vai ser penalizado e de que a cana entregue ter um menor valor. Uma coisa no compensa a outra. O ATR vale mais.

Para verificar quais so os itens de maior influncia no faturamento das empresas canavieiras, elaboramos uma anlise de sensibilidade, na qual aumentamos e diminumos entre 5% e 15% os principais custos de produo, desde a formao do canavial, tratos, colheita e transporte (CTT) e arrendamento, e comparamos os resultados com os ganhos de produtividade agrcola e o teor de sacarose (ATR), alterados na mesma proporo.

Esse estudo mostra que, com pequenos ganhos no teor de sacarose, o faturamento agroindustrial se expande significativamente. Ganhos de produtividade tambm alavancam o faturamento, mas no na mesma intensidade que o ATR. Para melhorar o teor de sacarose, no so necessrios grandes investimentos, enquanto, para se obter ganhos nos demais fatores de produo, preciso muito mais que simples mudanas de procedimentos, ao contrrio do que ocorre com o teor de sacarose.

Ressalte-se que, nas carssimas operaes de colheita e transporte, os gastos esto "travados", e por isso se exigem muito mais esforos para se conseguir poucas redues no custo de produo de cana. Se o produtor focar na qualidade de servios, respeitar os limites das colhedoras e, principalmente, buscar uma matria-prima mais limpa, pode-se afirmar que os sofridos produtores tero, com toda a certeza, um melhor faturamento por unidade de produo.

Nenhum outro insumo, operao agrcola ou tecnologia utilizada na produo canavieira pode trazer mais retorno financeiro do que a maximizao do teor de sacarose. Pensem nisso e iniciem um plano de melhoria contnua, tendo o aumento do teor de sacarose como o principal objetivo, pois cremos que s o aumento no teor de sacarose nos salvar das dificuldades atuais.

A busca pela qualidade da matria-prima e pelo teor de sacarose exigir dos loucos por rendimentos maior respeito aos limites das mquinas e aos canaviais.

O caminho por a.


*Artigo originalmente publicado na Revista Opinies, edio nmero 52 de abril/junho de 2017.

Dib Nunes Junior
Presidente do Grupo Idea
Os artigos assinados so de responsabilidade de seus autores, no representando,
necessariamente, a opinio e os valores defendidos pela UDOP.
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