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Sugestão de estratégia de curto prazo para capturar valor na cana  

21/03/2018 - Neste artigo seguem os principais números e as reflexões tanto para o curto quanto para o longo prazo da cadeia agroindustrial da cana à partir dos fatos de março. Em relação à safra em andamento, pela Unica, a moagem até o final de fevereiro foi de 585,28 milhões de toneladas (1,78% menor que na comparação da safra anterior). O mix da safra está em 53,16% para açúcar e 46,84% para etanol. Já foram produzidos 35,84 milhões de toneladas de açúcar (1,57% a mais), e no etanol 25,47 bilhões de litros (+1,25%). A produção de hidratado subiu 2,49%, para 14,97 bilhões de litros e a de anidro caiu 0,47%, para 10,51 bilhões de litros. No ATR houve boa melhoria, chegando a 137,22 kg/ton, contra 134 kg/ton na safra anterior (2,66% melhor), por isto que estamos com mais produtos mesmo tendo menos cana. O rendimento de etanol e açúcar por tonelada de cana processada nesta safra está em 42,75 litros (2,03% acima) e 61,24kg (3,42% acima).

A Unica acredita que esta safra deve fechar com 597 milhões de toneladas (1,67% menor que a 2016/17), mas com ATR ligeiramente superior (2,66%), bem próxima à estimativa da Datagro (596 milhões).

Em relação à próxima safra brasileira (2018/19) a pesquisa feita pela Reuters com diversos agentes estima a produção do Centro-Sul em 588,64 milhões de toneladas (2018/19), pouca coisa a mais dos 585 milhões que estimam para esta safra. A Copersucar estima a produção de açúcar em 31 milhões de toneladas, 5 milhões a menos, a serem produzidas com 585 milhões de toneladas de cana (10 milhões a menos). Acredita em produção de 27,5 bilhões de litros de etanol, cerca de 1,5 bilhão a mais, com mix de 41,5% para açúcar (46,5% nesta safra). Pela Datagro, a safra deve ser de 577 milhões de toneladas, com escassez de chuvas no ano passado em alguns meses do inverno e menor investimento em renovação (menos que 14%), além de chuvas abaixo da média neste início do ano. A Raízen acredita em safra de 585 milhões de toneladas e pretende moer entre 63 a 67 milhões de toneladas, ante às 61 milhões deste ano.

Usinas que já começaram a moer neste ano estão direcionando muita cana para etanol. No caso da Batatais, a produção de açúcar deve cair bastante (quase 20%), pois os preços atuais não compensam o custo de produção estimado de 15 centavos por libra peso. A empresa tomou adequada decisão em 2017 de fixar 45% da produção a um preço de 16,50.

A LDC deverá aportar US$ 1 bilhão na Biosev para melhorar a situação financeira da empresa. A divida apenas nesta safra cresceu com o prejuízo de R$ 823,1 estando ao redor de 3,4 x o EBITDA (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização).

Em relação às reflexões dos fatos e números do açúcar, foi mais uma vez elevada a estimativa de superávit de açúcar na safra 2017/18 (01 de outubro a 31 de setembro) pela Organização Internacional do Açúcar (OIA), agora em 5,15 milhões de toneladas. O consumo deve ser menor, agora em 173,55 milhões de toneladas, contra 174,41 milhões da estimativa anterior. A produção foi estimada em 178,7 milhões de toneladas. Na temporada 2016/17 houve déficit de 2,54 milhões de toneladas. O grande crescimento da produção, estimado em mais de 6% (10,5 milhões de toneladas) se deve às produções na China, União Europeia, Índia e Tailândia, todos inundando o mundo de açúcar. A Índia deve produzir 29,5 milhões de toneladas nesta safra, um recorde.

A Datagro crê que a safra brasileira de açúcar de 2018/19 (Centro-Sul) cairá de 36 para 31,6 milhões de toneladas, usando o máximo possível do mix para etanol, que hoje remunera ao redor de 17 centavos de dólar por libra peso ou também para açúcar branco visando o mercado interno, que volta a crescer neste ano com a recuperação econômica. Devemos ter 57% da cana para etanol. Também a Unica acredita na produção de açúcar caindo cerca de 5 milhões de toneladas.

Segundo a Archer, apenas 42,6% do açúcar a ser exportado no ciclo 2018/19 já foi fixado, contra 52,4% ano passado e 60% há dois anos. Os preços médios são de 15,51 centavos de dólar por libra-peso, o que ao câmbio de R$ 3,2060 traria um valor de R$ 1.142 por tonelada. Acredita em safra de 580 milhões de toneladas e mix de açúcar de 41,4%.

Preços do açúcar seguem terríveis, na ultima semana ao redor de 12,65 centavos com as informações do excesso de oferta. O açúcar cristal, de acordo com o Cepea está saindo das usinas a R$ 50,34 (saco de 50 kg), um preço 35,40% menor que os de março de 2017 (R$ 77,93). Segundo a Archer, o relativo atraso nas fixações por parte das usinas brasileiras também tem contribuído. Este preço terá impactos importantes tanto na produção futura destes países, no endividamento de seus participantes e na produção e renovação brasileira.

Em relação às reflexões dos fatos e números do etanol e energia, ressalto que teremos grande aumento de consumo de combustível neste ano com a retomada da economia e de vendas de automóveis. Os emplacamentos de veículos estão 11% acima do ano anterior, e em fevereiro foram 220 mil unidades.

Desde o inicio da safra até o final de fevereiro no Centro Sul foram vendidos 24,18 bilhões de litros de etanol, sendo 14,08 bilhões de hidratado (6,13% a mais). Em fevereiro as vendas de hidratado foram 37,5% maiores que o mesmo mês do ano passado, chegando a 1,15 bilhão de litros deste tipo e 720 milhões de anidro. No total as usinas venderam 1,95 bilhão de litros. Estima-se que no primeiro trimestre devemos importar cerca de 500 milhões de litros de anidro. Vale lembrar que o recorde de consumo de hidratado foi em 2015, com 17,8 bilhões de litros. Para se repetir, teria que cair quase 20% a produção de açúcar nesta safra, mais de 6,5 milhões de toneladas. Acho que dá!

As cotações do etanol agora em março (R$ 1,87) estão 23% maiores que as de março de 2017, segundo o Cepea.

A Datagro acredita em produção de etanol de 26,5 bilhões de litros em 2018/19, sendo 10,84 bilhões de anidro e 15,64 de hidratado, com 520 milhões de litros advindos de etanol de milho. Pesquisa feita pela Reuters estimou em 27 bilhões de litros a produção da safra 2018/19, 9,3% maior que os 24,7 bilhões desta safra. Temos que torcer para o Petróleo não recuar neste período.

A Plural (antigo Sindicon) deve fazer campanha de comunicação para explicar como são os preços dos combustíveis, uma vez que o Brasil apresenta a segunda gasolina mais cara entre os produtores de petróleo. Os impostos que incidem são os grandes responsáveis por este preço. A relação de aumento é de 1,5% a mais no preço da gasolina na refinaria e 0,4% no posto. Os impostos representam cerca de 48% do preço final do combustível vendido em quase 42 mil postos no Brasil. A Plural prega a unificação do ICMS, que no caso da gasolina varia entre 20 a 35% e no etanol, de 12 a 30%. Já o Governo estuda deixar um valor fixo por litro, que não teria variação com o valor do Petróleo, permitindo mais planejamento fiscal aos estados.

Caminha rapidamente a tramitação do RenovaBio e existe grande expectativa que a aprovação deste possa gerar uma onda de investimentos em biorefinarias, produzindo bioquímicos e outros nos próximos 20 anos.

Um fato interessante a ser observado é se os EUA aumentarão a taxa de juros. Se isto acontecer, o Real provavelmente se desvaloriza um pouco. Exercícios feitos pela Archer para níveis de preços entre US$ 55 a 65 o barril e valor do dólar entre R$ 3,25 e R$ 3,40 mostram um piso para o açúcar de 13,67. Abaixo deste número a prioridade é fazer hidratado.

A Toyota demonstrou pioneirismo e já está testando o Prius Flex, carro hibrido que pode usar também o etanol junto com a propulsão por eletricidade. Em 2017 a Toyota vendeu 2,4 mil unidades deste carro, extremamente econômico. Resta esperar que o Governo promova a esperada redução do IPI para carros híbridos de 13% para 7%, mas apenas para os veículos flex. O carro agora vai rodar 1500 km até Brasília em fase de testes.

finalizando... qual seria a minha estratégia agora em março com base nos fatos? com as estimativas mostrando uma safra menor de cana (581 milhões de toneladas é meu número hoje), com o mundo entupido de açúcar e o petróleo subindo e se mantendo acima de US$ 62/barril, e o consumo de combustíveis no Brasil em franco crescimento, eu tentaria um mix maior que o estimado de 57% na safra para etanol, forçar para chegar perto de 60% (tem menos cana, permite mais flexibilidade) carregando o máximo possível neste início de safra para etanol, vendendo este etanol aproveitando os preços atuais, segurando um pouco o produto caso estes comecem a cair com a entrada da safra, e neste caso pressionar para que eventuais reduções de preços na usina cheguem simultaneamente na bomba para a frota flex se direcionar fortemente para o hidratado e consumir rapidamente a entrada da safra. Eu não venderia nada de açúcar, estocando o que for produzido. Se o Brasil, ao invés das esperadas 5 milhões, tirar 7 milhões de toneladas ou até um pouco mais com maior direcionamento para etanol, os preços do açúcar assim que estes sinais forem dados, começam a reagir. É a minha estratégia de curto prazo (hoje), sempre transparente ao setor!


*Leitura do Prof. Dr. Marcos Fava Neves sobre os Fatos da Cana em Março de 2017.

Marcos Fava Neves
Especialista em planejamento estratégico do agronegócio, é Professor Titular da FEA/USP, Campus de Ribeirão Preto
Os artigos assinados são de responsabilidade de seus autores, não representando,
necessariamente, a opinião e os valores defendidos pela UDOP.
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