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23/08/2018 - Nesta análise mensal seguem os principais números e as reflexões tanto para o curto quanto para o longo prazo da cadeia agroindustrial da cana à partir dos fatos da segunda quinzena de julho e primeira de agosto.

Segundo a UNICA até o final de julho foram processadas 314,8 milhões de toneladas de cana, 5,5% a mais que na safra anterior. Em açúcar foram produzidas 14,75 milhões de toneladas (16,3% a menos) e em etanol 16,05 bilhões de litros (38% a mais que a safra passada). O destaque vai para o hidratado, onde produzimos 11,12 bilhões de litros, 68% a mais. Isto é fruto de um mix de 63,5% para etanol, contra 51,5% no comparativo com o ano passado. O ATR/tonelada está em 134,67 (5,2% maior). Cana de melhor qualidade e menor quantidade.

A produção da última quinzena de julho mostra grande queda no açúcar (23,7%) devido ao mix cair para 37,7% do total moído (45,31 milhões de toneladas). As vendas de etanol no Centro Sul em julho foram de 2,70 bilhões de litros, e destes 253 milho-es foram exportados. De hidratado foram vendidos 1,70 bilhão, 52% a mais que julho de 2017. O mercado interno de hidratado nesta safra cresceu quase 38%, com vendas de 6,04 bilhões de litros.

Nova estimativa da Datagro é de apenas 557 milhões de toneladas de cana no Centro Sul. Caiu mais 5 milhões em relação à estimativa anterior. O ATR deve ser 138,5 quilos por tonelada, 1 kg acima da projeção anterior. A projeção de açúcar caiu quase 1 milhão de toneladas, agora para 28,2 milhões e etanol subiu mais de 800 milhões de litros, agora em quase 29 bilhões.

A Raizen estimou que deve processar entre 60 a 63 milhões de toneladas, contra a estimativa anterior que chegava a quase 66 milhões. Com a seca, a moagem está 16% mais acelerada em relação à safra passada. O mix para açúcar caiu de 57 para 48%. Uma parte importante da sua produção de açúcar foi bem fixada ao redor de 14 centavos por libra peso.

Em relação ao açúcar, as reflexões dos fatos são: A Índia deve inundar o mercado mundial de açúcar com 35 milhões de toneladas, podendo exportar até 7 milhões de toneladas, fruto de pesados subsídios por parte de seu Governo, indo desde preços mínimos aos produtores, empréstimos aos industriais, apoio à estoques, apoio à exportação, tarifas de importação. Ao invés de reduzir a produção, como o Brasil vem fazendo, e trazer mais equilíbrio no preço, este artificialismo faz a Índia manter o pé no fundo do acelerador. É o grande culpado pelos preços atuais.

A safra 2018/19 tem, segundo a Archer Consulting, 16,68 milhões de toneladas fixadas até o final de julho, 72,5% do total, a um valor de 13,91 centavos de dólar por libra-peso.

Boa notícia veio do Food and Drug Administration (FDA), que regula alimentos nos EUA, concluindo que o açúcar vindo da cana geneticamente modificada feita pelo Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), é seguro e foi aprovado. Esta cana é resistente à broca.

Concluindo, os preços continuam incrivelmente baixos, devido ao excesso de produção, chegando a 10 cents... Queda de 35% neste ano de 2018... O câmbio compensa um pouco, deixando-o a cerca de 900 reais por tonelada. Mas boas estratégias comerciais sempre compensam: até o final de junho a São Martinho já tinha fixado mais de 500 mil toneladas a 14,49 cents/libra peso. Segunda a empresa, isto daria R$ 1.126 por tonelada, para uma estimativa de custo de R$ 850 por tonelada. Seu lucro no primeiro trimestre foi de R$ 104 milhões, mesmo com a situação atual do setor.

Em relação ao etanol, as reflexões dos fatos são: neste mês de julho em seis estados o hidratado estava abaixo dos 70% do preço da gasolina: São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso e Paraná. Em SP a média foi de 58,9%. Em 4 meses da safra, usinas do centro-sul venderam 9,3 bilhões de litros, 6,2 no hidratado (38% maior). Mesmo com este crescimento, o etanol ainda está abaixo de 42% de participação no ciclo Otto, mostrando o grande potencial existente.

O mercado de combustíveis caiu 0,5% no semestre. O diesel aumentou 0,8%, gasolina caiu 12% e o hidratado cresceu 38,4%. Em junho as vendas de hidratado foram 42% maiores. Mesmo assim o consumo para carros do ciclo Otto caiu 4,2%, fruto da crise econômica. Nas usinas em julho, segundo o CEPEA, os preços caíram 17,5%, para R$ 1,4/l.

No primeiro semestre de 2018, a atratividade econômica do etanol trouxe benefícios não para apenas para o bolso, mas também para o meio ambiente e para a saúde da população. O maior consumo de etanol neste primeiro semestre (média de 2,2 bilhões de litros por mês) contribuiu para evitar a emissão de 32 milhões de toneladas de CO2 na atmosfera, de acordo com a UNICA.

Outro benefício das boas vendas de hidratado foi da redução das importações de gasolina, em quase 32%. Segundo a Datagro, entre janeiro e julho o volume caiu de 321 para 210 milhões de litros, trazendo economia de quase US$ 150 milhões. Mesmo assim gastamos US$ 1 bilhão em importações.

Com efeitos do câmbio e dos preços do petróleo, já exportamos 800 milhões de litros nos cinco primeiros meses da safra 2018/19, mais de 10% acima do ano passado. Segundo a UNICA, devem atingir 1,6 bilhão de litros na safra.

Também é interessante estudo divulgado pela USP que mostra que se atingirmos as metas colocadas até 2030 no acordo do clima, o etanol de cana evitaria emissões de 571 milhões de toneladas de CO2, e seus impactos na saúde pública seriam evidentes, evitando 11 mil internações e quase 7 mil mortes no período, com economia de US$ 23 milhões para o Sistema Único de Saúde (SUS).

O Nordeste começa uma safra que também deve ser bem alcooleira, com destino de mais de 57% da cana, gerando mais de 2 bilhões de litros, numa moagem entre 47 a 48 milhões de toneladas, devido à renovação de canaviais e clima favorável. O consumo é estimado em cerca de 4,6 bilhões de litros. Devem aumentar as importações de etanol do Centro Sul.

Segundo o Instituto Mauá de Tecnologia, a performance do hidratado indica a mudança do parâmetro, que hoje estaria mais perto de 71 a 75% do rendimento da gasolina. Foram feitos testes com 20 tipos de carros. Boa notícia que precisa ser divulgada.

Onde eu arriscaria agora em agosto/setembro: segue nossa única alternativa fazer o máximo possível de hidratado, e quem conseguir estocar, melhor ainda, pois creio em subida de preços no final deste semestre e as empresas capitalizadas estão fazendo isto e podem ganhar livre, comprando etanol agora e vendendo na entressafra, pelo menos uns 40 centavos por litro. A São Martinho espera que seu preço médio de venda de etanol fique próximo de R$ 1.850/m3. Está retendo etanol para vender na entressafra, com praticamente 1 bilhão de litros para vender.

Marcos Fava Neves
especialista em planejamento estratégico do agronegócio, é Professor Titular dos Cursos
Os artigos assinados são de responsabilidade de seus autores, não representando,
necessariamente, a opinião e os valores defendidos pela UDOP.
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