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Sojicultor dos EUA sofre com guerra comercial  

10/01/2019 - Os ltimos 370 km do rio Mississippi sustentaram por muito tempo o poderio americano nos mercados de alimentos globais. Dez terminais de gros se erguem como fortalezas acompanhando suas curvas, recebendo safras das fazendas rio acima, armazenando-as em silos de concreto e enviando-as sobre os diques para os pores de navios estrangeiros. Juntos, podem exportar 500 mil toneladas por dia.

Mas neste ano a alta temporada, no outono, no veio. A quantidade de cereais e sementes oleaginosas que passa pelos portos fluviais do Mississippi caiu 9% sobre 2017.

A Cargill, maior corretora agrcola do mundo, desativou vrias vezes seus dois terminais no rio, incluindo um fechamento de cinco dias em novembro quando os trabalhadores ficaram em casa, sem remunerao. "Nunca fizemos isso", disse Jeremy Seyfert, diretor do terminal. "Fechamos a usina por cinco dias porque no havia o que carregar."

Entre setembro e dezembro, os volumes de soja embarcados nos terminais da Cargill na Louisiana caram 40% em relao ao ano anterior.

O distrbio na foz do Mississippi um resultado agudo da guerra comercial EUA-China. Depois que Donald Trump imps novas tarifas aos produtos chineses, Pequim revidou com taxas sobre as exportaes americanas, incluindo a maior parte de seus US$ 20 bilhes em venda de commodities.

As exportaes de soja, de US$ 12 bilhes em 2017, foram as mais atingidas. A conquista dos campos agrcolas pela semente oleaginosa nos ltimos 20 anos se resumiu em geral a agricultores americanos jogando com a demanda chinesa por protena para alimentar porcos e frangos.

Pequim aumentou as tarifas sobre a soja em 25 pontos percentuais em julho, tirando a safra americana do maior mercado mundial e fazendo disso um smbolo da deteriorao das relaes bilaterais.

As esperanas cresceram no cinturo agrcola dos EUA depois que Trump e o dirigente Xi Jinping, se reuniram em Buenos Aires no fim do ano e concordaram em no intensificar sua disputa por 90 dias, perodo que termina em 2 de maro. Pequim comprou nas ltimas semanas alguns milhes de toneladas de soja para sua reserva governamental, em um sinal de boa vontade.

Mas o mercado est ctico sobre a possibilidade de uma distenso permanente.

"A realidade que estamos nas fases iniciais de uma nova Guerra Fria", disse Jan Lambregts, chefe global de pesquisa de mercados financeiros no Rabobank, um credor no setor de alimentos e agricultura.

"A China atirou a luva: quer ser o nmero um. Os EUA responderam dizendo que isso no vai acontecer. Nesse contexto, no posso ver um acordo duradouro."

Mesmo que Pequim e Washington faam as pazes, as consequncias do impasse da soja de 2018 sero duradouras. Veteranos do mercado lembram que um embargo americano em 1973 s exportaes de soja provocou a ascenso do Brasil como grande ator no setor.

"Quando voc marcado com o smbolo de um fornecedor inconfivel, difcil recuperar completamente as vendas perdidas", disse Scott Irwin, economista agrcola na Universidade de Illinois.

A segurana alimentar prioridade para Pequim. A incerteza sobre as relaes com os EUA poder lev-la a diversificar ais suas fontes de soja.

O maior vencedor na guerra comercial at agora foi o Brasil, pois a China comprou a sua colheita anterior. As margens de lucro bruto para os agricultores superaram 50% em Mato Grosso, comparadas com uma mdia histrica de 30%, segundo Guilherme Bellotti, analista snior do Ita BBA.

*Financial Times, traduo de Luiz Roberto Mendes Gonalves

Gregory Meyer
Fonte: Folha de S. Paulo
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