Quinta-feira, 20 de junho de 2019
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"Cana-caiana" - O alerta do lapso da Imperatriz  

Eduardo Pereira de Carvalho*

"Cana-caiana/a cultura que o árabe propagou/ apesar dos cruzados plantarem/ a cana na Europa não vingou/ mas conta a história que em Veneza/ o açúcar foi para mesa da nobreza/ Virou negócio no Brasil trazida de além mar (...) ". Esse é o trecho inicial do samba-enredo da Imperatriz Leopoldinense, tri-campeã do carnaval carioca e que fala da inserção da cana-de-açúcar, do açúcar e da cachaça no Brasil.

Aliás, uma homenagem merecida! Esse é um pedaço mal explicado da nossa história. A dimensão e importância da indústria da cachaça neste país revelam questões muito interessantes, já abordadas por historiadores e que difere as regiões canavieiras brasileiras: no Nordeste ela se desenvolveu com usinas já existentes; no Centro-Sul, particularmente em São Paulo, agricultores nacionais, juntamente com os imigrantes que vieram ajudar a fazer o desenvolvimento da região, montaram alambiques e destes ao IAA - Instituto do Açúcar e do Álcool e aos estímulos para se transformarem em usinas de açúcar e de álcool foi um "pulo" que transformou as antigas indústrias aguardenteiras, principalmente no Proálcool, em destilarias de álcool.

Embora tenha falado da cachaça, faltou à Imperatriz essa abordagem que necessariamente a remeteria ao álcool combustível. Afinal, como dizem os norteamericanos com relação ao álcool, "beba o melhor e queime o resto". Infelizmente isso a Imperatriz não desenvolveu e, a propósito, faz alguns anos que a produção de álcool sofre de uma desaceleração grave em conseqüência da não venda de carros a álcool. Trata-se de um mercado já retraído, mas responsável pelo consumo anual de seis bilhões de litros de álcool hidratado, quase metade da produção nacional de etanol.

Há muito tempo, deixamos de ser produtores de alimento: 55% da cana-de-açúcar brasileira é moída para fabricar álcool. O escopo da nossa atividade é energia.

Apesar de o mundo contabilizar demanda maior do que 127 milhões de toneladas/ano, o mercado livre que conta e que dá dinheiro líquido não chega aos 35 milhões de toneladas anuais. Qualquer excedente de cana-de-açúcar no Brasil altera o preço do açúcar no mundo, antes que as moendas comecem a funcionar no início de cada safra.

A atividade é protegida e subsidiada há séculos porque é estratégica: como o sal, para o bem ou para o mal, compõe a dieta humana, dá energia, especialmente para os pobres. Água com açúcar... e sal, continua sendo o soro da diferença entre a vida e a morte de milhares de seres humanos, ironicamente atropelados pelas más condições sanitárias do pedaço inferior do Planeta.

O mercado livre internacional do açúcar é muito pequeno. É o que sobra da fome. Quando o Brasil aumenta sua participação é porque alguém saiu...talvez para matar a fome dos seus cidadãos.

O Brasil tem um custo médio de produção de açúcar próximo de US$ 200/t. No Centro-Sul do País, pode ser apertado para US$150/ t. Na Ucrânia, os custos de extrair açúcar cravam US$ 800/t; na China, mais de US$ 700/t; nos EUA, tirar açúcar de milho custa US$ 450/t.

O Brasil pode competir com os pés nas costas no mercado internacional de açúcar por ser também o maior produtor de álcool, regulador da produção de energia de biomassa da cana. Mas seu espaço esbarra nas barreiras protecionistas que comprimem o mercado livre. Por isso, precisamos ter cuidado com os avanços e recuos do canavial brasileiro: o governo não toma mais conta dele.

Em 1983, tivemos um excedente de 70 milhões de toneladas de cana. Entre 1991 e 1995 plantamos cana suficiente apenas para atender o mercado interno. Nesse tempo, com a globalização já a todo galope e as autoridades setoriais brasileiras batendo cabeça para saber se saltavam do cavalo, só exportamos açúcar porque importamos álcool e metanol (usado na mistura com a gasolina) e até em face do uso de um derivado de petróleo, o MTBE - metil tércio butil éter (hoje banido, devido aos problemas ambientais que apresenta). Às custas de catastrófica empanada de imagem perante a opinião pública e aos nossos consumidores.

As dificuldades setoriais têm origem na ausência histórica de compromissos com o mercado. E isso acontece desde que os capitais holandeses financiaram a fabricação e a comercialização internacional de açúcar, a partir do nordeste brasileiro.

De 1980 a 1986, partimos de uma demanda da ordem de 72 milhões de toneladas de cana para 140 milhões de toneladas. O período chegou a ofertar cerca de 200 milhões de toneladas de cana. Apenas dez anos depois, em1996, saímos de um mercado onde faltava cana, para um excedente de 75 milhões de toneladas. Em seguida, a partir da safra 02/03 poderemos voltar a registrar excedentes. Como vamos dar estabilidade a esse processo?

Nós sabemos produzir mas nunca saímos a vender. Mas não existe um mercado de álcool efetivo no mundo, apenas demandas de momento. O Brasil representa 47% dessa produção, os Estados Unidos, 17%, a União Européia, 7%, a Índia, 12% e a China, 9%. É um mercado de características internas.

O maior volume transacionado até hoje foi de 4 bilhões de litros, em 1996, quando o Brasil importou álcool para suprir uma carência interna pontual, basicamente vindo dos EUA. Hoje o mercado mundial é da ordem de 3,6 bilhões de litros por ano, ou seja, existe um grande potencial para o álcool, mas não existe mercado efetivo de álcool. O álcool é produzido apenas para atender seus mercados locais.

Recentemente participei de reunião da Coalizão do Governadores Americanos Pró-Etanol e de uma visita a Alemanha. Em ambos os países o que vi foi um entusiasmo sem precedentes em relação ao futuro do álcool.

Há, portanto, a possibilidade de se constituir esse mercado. Hoje já se produzem nos EUA, em mais de 50 unidades, um respeitável volume de 5,7 bilhões de litros de etanol por ano. A matéria prima básica é o milho. Os veículos que o utilizam são flexíveis, podem usar um combustível de 100% de gasolina até uma mistura com 85% de álcool. Os EUA possuem hoje 750 mil veículos rodando com o chamado combustível flexível e se prevê que serão mais de 5 milhões, em 2005.

Os norteamericanos consomem hoje 6 bilhões de litros e, com o banimento do MTBE, já decidido pela Agência de Proteção Ambiental Americana (EPA), irão dobrar isso em poucos anos, mesmo sem considerar a demanda de álcool pelos carros flexíveis.

As empresas alemãs jogam suas fichas competentes com empresas americanas, canadenses e agora conosco, no desenvolvimento do uso do álcool em células de combustível, com baixíssimas emissões de poluentes.

E aqui? Será que a cachaça turvou nossa capacidade de vislumbrar o futuro?



* Presidente da UNICA - União da Agroindústria Canavieira do Est. de São Paulo

Fonte: Original do artigo de Eduardo P. de Carvalho
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