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Usinas Exploram Subprodutos
Publicado em 09/08/2006 às 00h00
Os subprodutos da cana ganham a atenção do mercado e chegam até mesmo a ameaçar a importância dos produtos principais, o açúcar e o álcool. A energia co-gerada a partir da queima do bagaço de cana é vista como alternativa à ameaça de desabastecimento e já atrai o interesse de distribuidores internacionais. Já os resíduos de produção - como a vinhaça e a torta de filtro - têm sido cada vez mais utilizados como fertilizantes com bons resultados para a agricultura.


As vantagens nutricionais dos dois produtos já são conhecidas há várias décadas e algumas unidades de produção já os utilizam desde a década de 70, mas o uso está em crescimento desde o ano passado, quando a mudança cambial encareceu os adubos químicos. Segundo o pesquisador Ailto Antonio Casagrande, professor da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Jaboticabal, usinas buscam agora racionalizar o uso e melhorar o aproveitamento dos subprodutos para reduzir a utilização de adubos químicos. "O Brasil é o País mais desenvolvido na utilização dos subprodutos da cana na lavoura", afirma.


A vinhaça é um resíduo do processo de destilação, fonte rica em potássio e que também tem cálcio, magnésio, enxofre e micronutrientes. Cada litro de álcool fabricado gera outros 13 litros de vinhaça com diferentes teores de potássio de acordo com a origem. O produto originário do melaço, resíduo da fabricação do açúcar, possui uma concentração de quatro a oito vezes maior do que a gerada na fabricação de álcool. Casagrande explica que o produto era inicialmente despejado nos rios, poluindo os cursos d´água. Apesar do valor nutricional do produto ser conhecido desde a década de 50, uma das primeiras unidades a utilizar a vinhaça na adubação foi a Usina da Pedra, de Serrana, em 1974. Na mesma época, começou a ser utilizada a torta de filtro, mistura de bagaço moído e lodo da decantação.


Hoje, o modo de aplicação do produto é testado de diferentes formas nas unidades de produção, desde a aplicação da área total até nas entrelinhas ou nos sulcos de plantio. Casagrande ressalta que a torta de filtro é um adubo orgânico que proporciona resultados espetaculares. O produto é rico em fósforo, além de ser fonte de cálcio, magnésio, enxofre e micronutrientes. "Além dos benefícios à agricultura, a grande vantagem da utilização desses resíduos é retornar ao solo o que a planta extraiu", explica o professor da Unesp.


Pesquisas em usinas da região de Ribeirão Preto apontam que as diferentes técnicas de substituição de adubos químicos proporcionam uma economia média de US$ 60 por hectare. Além da redução nos custos de plantio, o aproveitamento dos resíduos foi responsável por reduzir a poluição ambiental, já que os produtos eram anteriormente despejados nos rios. A utilização de vinhaça e torta de filtro foi um dos fatores responsáveis por colocar a Companhia Energética Santa Elisa em situação de destaque na pesquisa realizada pelo economista cubano Manuel Valdés Borrero em sua tese de doutorado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).


O trabalho analisou impactos ambientais em três usinas - além da Santa Elisa, foram analisadas a São José Rio das Pedras, de Piracicaba, e a Ester, de Cosmópolis - entre os anos de 1987 e 1997.O objetivo do trabalho foi criar uma metodologia para analisar os impactos. Há três anos, a usina foi premiada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) pelo trabalho ambiental desenvolvido. Energia Mas entre os subprodutos da cana, o que tem recebido maior atenção nos últimos anos é o bagaço, principalmente devido à sua utilização como fonte de energia. "A co-geração atrai tanto interesse que já ameaça tomar o lugar do açúcar e do álcool em importância", afirma Casagrande.


As usinas são auto-suficientes na geração de energia e muitas têm feito investimentos para fornecer o excedente para distribuidoras. A maior compradora atualmente é a Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL), que possui contrato com oito usinas que fornecem 35 MW de energia, o equivalente a 1% de seu mercado. A meta da distribuidora, pioneira na utilização da biomassa, é dobrar o volume adquirido a partir da próxima safra e, em 2003, suprir 7% do consumo com co-geração. A intenção é atingir pelo menos 300 MW, sendo 85% da biomassa e o restante, do gás. Segundo o gerente de compra de energia da CPFL , Antonio Sorge, a companhia tem interesse em comprar todo o excedente energético das usinas. Para ele, o interesse na co-geração vem aumentando devido à necessidade de crescimento na geração de energia. "Antes, a co-geração não era necessária, mas agora ela é uma alternativa a ser considerada", diz.


Outras empresas começam a entrar no mercado. A Companhia Geral de Distribuição Eléctrica (CGDE), de origem portuguesa, busca firmar parcerias com usinas do interior paulista para incentivar a co-geração. O grupo pretende investir R$ 350 milhões em três anos na construção de 35 termelétricas para gerar 300 MW. Pelo projeto, a CGDE arca com os custos de instalação das termelétricas ao lado das usinas. Depois de 15 anos, a estrutura será passada para as usinas. Outras empresas de capital estrangeiro também estão de olho no potencial energético das usinas.


A norte-americana Besicorp firmou um contrato com a Univalem, de Valparaíso, e juntas investirão US$ 180 milhões na construção de uma térmica mista, movida a bagaço e a gás. A unidade será instalada ao lado da usina, que fica distante seis quilômetros do gasoduto Brasil-Bolívia, e deverá gerar 240 MW em três anos. "A energia do bagaço deve ganhar cada vez mais espaço porque além das vantagens ambientais, começará a gerar lucro para as usinas devido ao aumento da procura", afirma o professor Casagrande. Ele afirma que co-geração registra também uma função social importante por fornecer um produto que falta no País e pode gerar empregos.
Luciana Cavalini
Fonte: Gazeta Mercantil
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