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Álcool Combustível: É Preciso Aproveitar Esta Oportunidade
Publicado em 10/08/2006 às 00h00
Estamos vivendo um período em que os preços do álcool combustível caíram consideravelmente. É comum encontrarmos hoje postos vendendo álcool abaixo R$ 0,50 e casos até de R$ 0,35 ou menos. Tal situação é fruto de um enorme excedente de álcool disponível nas destilarias e da redução na produção de veículos a álcool. A situação é ruim para as destilarias que estão arcando com o ônus dos preços baixos do custo da estocagem. Mas é muito boa para o consumidor que tem a oportunidade de economizar, e ainda por cima de poluir menos.



Comecemos pelo meio ambiente. O primeiro ponto é o tão conhecido efeito estufa, quando se queima o combustível fóssil, libera-se uma quantidade de calor gerada na combustão e coloca-se no meio ambiente mais gás carbônico (CO2) que a natureza não consegue reabsorver, seja na forma de fotossíntese das plantas, pelas águas marinhas ou pela fixação na forma inorgânica, formando os carbonatos. As reações de absorção de gás carbônico necessitam deste combustível, mas como a natureza não consegue reabsorver o gás carbônico na mesma taxa em que é produzido, gera-se ai uma quantidade de calor que fica distribuída no ambiente, promovendo então o aquecimento do planeta, fenômeno este conhecido como efeito estufa. No caso da combustão de um combustível renovável, como o álcool, a quantidade de calor liberada hoje, será absorvida pela nova cana que será formada amanhã e o efeito se anula, não havendo saldo de calor disponível para aquecer o ambiente. Em verde o saldo é negativo, pois ao se formar a cana, ela fixa muito gás carbônico devido a formação de grande quantidade de raízes que ficam no solo, e ao ser cortada essas raízes permanecem por longo tempo na forma de matéria orgânica no solo, de degradação lenta. Portanto, a cana é um grande absorvedor de gás carbônico da natureza, reabsorvendo quantidades de calor que foram liberadas ao se queimar qualquer combustível.



A combustão do álcool é limpa, praticamente completa, pois é fácil queimar o álcool. É que sua molécula é muito simples, com apenas dois carbonos, que é facilmente "desintegrável" e "ávida" por oxigênio, resultando muito pouco "resíduo" não queimado, estes "resíduos" não queimados sempre causam prejuízo ao ser humano, pois compostos não queimados totalmente são em gera muito tóxicos, como é o caso, por exemplo, do monóxido de carbono (CO), que é letal mesmo em pequenas concentrações no ambiente. O álcool queima fácil e não deixa resíduos perigosos. A gasolina, por sua vez, é uma mistura de uma série de componentes com móleculas muito mais complexas, variando de 5 a 12 carbonos, cuja "dificuldade" de queimar é muito maior que o álcool, resultando em uma série de compostos que não foram queimados totalmente (monóxido de carbono, hidrocarbonetos, etc).



Por ser um combustível não renovável e pela quantidade de compostos nocivos que se formam na sua combustão, a gasolina gera muito mais poluição do que o álcool.



Além da questão do meio ambiente, a grande vantagem do uso do álcool atualmente é o baixo preço. Poderíamos dizer que os carros a álcool sumiram do mercado e esta vantagem fica prejudicada; o consumidor já perdeu esta vantagem e as concessionárias estão com filas de entrega.



Algumas montadoras estão resistindo a relançar o carro a álcool provavelmente porque não querem ter duas linhas diferentes de montagem, o que realmente pode aumentar os seus custos de manufatura. Outro motivo, talvez seja o fato de que querem aproveitar o projeto de um carro mundial, cuja tecnologia foi desenvolvida fora, não dando oportunidades aos engenheiros brasileiros, e ai o conhecimento "tupiniquim" não é aproveitado.



Mas mesmo tendo-se um carro a gasolina, pode-se fazer algumas economias. Vamos por partes. O álcool que se adiciona na gasolina é o chamado anidro, aquele que tem baixo teor de água. O álcool anidro americano (usado no "gasohol", isto é, mistura de "gasolina" com "alcohol") tem mais água que o brasileiro: 0,8% contra 0,4%. É que os americanos estudaram mais o assunto que nós e viram que não faz mal algum este pouco a mais de água no combustível. Em verdade, a mistura de um álcool hidratado (que o Brasil se chama "carburante"), este que abastece o carro a álcool e que tem 4% de água, só tem importância quando a mistura à gasolina se faz até num máximo de 12%; abaixo destes níveis pode ocorrer a separação da água e esta pode separar no fundo do tanque. Contudo, quando a quantidade de álcool colocada na gasolina é maior que 12%, e quanto maior esta percentagem mais estável é a mistura, não há separação da água na mistura álcool-gasolina. Isto tudo está até hoje muito bem estudo e reportado nos chamados "diagramas de equilíbrio". Acontece que a gasolina brasileira já vem com 24% de álcool anidro e se colocarmos ao abastecer uma certa quantia adicional de álcool carburante (por exemplo, mais 7 a 8 litros em cada abastecimento de 50 litros/total), estaremos subindo a percentagem de álcool para (8 42 x 0,24) / 50 = 36% e o combustível será perfeitamente estável e o veículo rodará muito melhor, com mais torque, e melhor retomada de velocidade quando necessário. Mas o melhor disso é que no exemplo acima, supondo-se a gasolina a R$ 0,90 e o álcool a R$ 0,50 os 50 litros abastecidos custarão 8 x 0,50 42 x 0,90 = R$ 41,80 ao invés de 50 x 0,90 = R$ 45,00. E se o álcool custar R$ 0,40 então a economia será de R$ 4,00 ao invés de R$ 3,20.



Há agora um outro ponto importante a ser considerado. Para a maioria de nós, aumentar a quantidade de álcool na gasolina soa como um palavrão, pois intuitivamente relacionamos a piorar o combustível e causar danos ao motor. Puro engano. A cerca de 40 anos já se tinha publicações mostrando as vantagens de se usar a gasolina misturada ao álcool, com informações de que o álcool melhora a octanagem (dando maior torque ao motor), limpa o motor devido a redução da formação de carbonização (crostas de carvão que se formam nos cilindros) e assim proporciona ao veículo uma marcha melhor, quando se aumentou recentemente no Brasil a quantidade de 22% para 24% de álcool à gasolina, houve aqueles que esbravejaram contra a medida, por acreditar que seriam prejudicados. Ocorre que no passado, muitos países usaram misturas de álcool à gasolina em porcentagem de até 33%, sendo aos poucos reduzida ou abandonada em função do barateamento da gasolina (mas não por problemas técnicos), assim, temer que o aumento da porcentagem do álcool à gasolina possa causar danos ao motor é, no mínimo, um desperdício de conhecimentos. A situação no Brasil hoje é inversa, pois a gasolina é cara e o álcool é barato e abundante. Colocar mais álcool à gasolina é baratear o custo da "gasolina".
Fonte: Florenal Zarpelon, eng. químico, especialmente em energia - Informativo mensal da ALCOPAR
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