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Álcool como combustível: solução ou problema?
Publicado em 10/08/2006 às 00h00
O petróleo ainda é imprescindível para que o mundo não pare, mas tal situação tende a ser revertida num tempo mais breve do que se imagina. Estudiosos de diversos países, conscientes dos prejuízos financeiros e ambientais causados pela usa utilização como fonte de energia, estão empenhados no desenvolvimento de projetos que visam a substituir uma parcela de combustíveis fósseis por combustíveis alternativos, provenientes de fontes renováveis.



A crise das décadas de 70 e 80 foi a mola propulsora para que diversos países mergulhassem em estudos a respeito. Era preciso criar outros meios para suprir a carência energética que se acentuava. Na época, a solução encontrada pelo governo brasileiro foi utilizar o etanol como combustível em veículos leves, promovendo a sua competitividade no mercado. A partir dessa idéia, nasceu, em 1975, o Programa Nacional do Álcool (Proálcool).



Após o lançamento do Proálcool, o crescimento do plantio de cana-de-açúcar e da produção de álcool foi notável, principalmente nas regiões Sudeste e Centro-Oeste. "A região Nordeste foi vista por centenas de anos como a grande produtora do setor. Hoje, ela foi superada pelas regiões Centro-Oeste e Sudeste, que respondem por 85% da produção canavieira", ressalta Luiz Carlos Corrêa Carvalho, Diretor Superintendente da UNICA -- União da Agroindústria Canavieira de São Paulo.



A cultura da cana-de-açúcar teve uma excelente adaptação em ambas as regiões. Lugares como o cerrado, onde foi introduzida há pouco tempo, mostraram-se aptos para o seu plantio. O aumento das indústrias de bens de capitais cem por cento nacionais e o sistema P&D implantado comprovam o grande interesse pela expansão dessa cultura.



O Brasil acumulou uma grande experiência na produção e distribuição do etanol em larga escala. Por mais de 20 anos o etanol hidratado e o etanol anidro misturado à gasolina têm estado presentes em uma grande frota de veículos (mais de 3 milhões de unidades) em todo o território nacional, através de 25 mil postos de combustível.



O baixo preço internacional do petróleo e a liberalização da economia e dos preços dos combustíveis, no final da década de 90, aliados aos altos preços do açúcar no mercado internacional, quase provocaram a estagnação da produção de álcool. Isso causaria a conversão de grande parte da capacidade produtiva para o açúcar. Esta crise acabou desacreditando o programa, provocando a redução drástica na produção de veículos novos a álcool. Hoje, o baixíssimo nível de vendas de carros a álcool (cerca de 1% do total de vendas do Ciclo Otto) ainda é um fator preocupante, mas espera-se que ele seja solucionado em breve.



Para que o álcool se torne um combustível competitivo com a gasolina, é necessário que haja uma regulamentação na área comercial e na sua produção. É preciso dar segurança de abastecimento ao consumidor, garantindo a estocagem e, consequentemente, a oferta e a estabilidade do preço.



No final do ano 2000 o mundo passa por uma crise semelhante à de 1973. O preço do barril de petróleo chegou a custar US$ 32,80, a maior alta dos últimos dez anos. "A somatória de fatos propicia um momento favorável para que o álcool seja mais aceito pela sociedade. O aumento do preço do petróleo (como anteriormente previsto), o ajuste no câmbio, tornando-o mais realista, e o equilíbrio entre oferta e demanda permitem que o álcool seja a bola da vez". Essa é a opinião de Paulo Zanetti, Diretor Superintendente da CEPAAL -- Coligação das entidades dos Produtores de Açúcar e Álcool.



Paulo Zanetti alerta o setor, a sociedade e o governo para que se faça um trabalho maior quanto ao seu planejamento: "A expansão do mercado deve ser na mesma proporção da lavoura e, para tanto, é indispensável um planejamento estratégico do setor. O sucesso da lavoura não depende apenas dos produtores e dos empresários. Se não chover, não tem como plantar. O meu receio é que exista um crescimento da lavoura sem planejamento e aconteça de novo o que chamamos de efeito estilingue: uma super oferta, alternada por uma escassez". Ele ressalta que o produtor resgatou a rentabilidade e agora começa a caminhar em direção à expansão do mercado e à melhoria da produtividade. Segundo Zanetti, as perspectivas do álcool como combustível são as mais otimistas possíveis.



Para Edilson Bernardim Andrade, Químico Industrial e Diretor da WBS Engenharia Ltda., a expectativa é de que nesta safra 200/2001, haja um estoque de passagem pequeno, estimado em 700 milhões de litros, o que poderia sugerir uma falta do produto. Se isso acontecer, a tentativa de abertura de novos mercados não faria sentido. Ele ressalta que, com a crise de 1998/1999, houve uma retração na produção de cana que, associada à seca intensa nos últimos anos, gerou significativa quebra de produtividade da cultura. "Toda a redução na área plantada já foi resposta e há previsões de que nas safras de 2001/2002 e 2002/2003 ocorra superprodução e consequente sobra de álcool no mercado, isto é, excedentes novamente. Então, o que o setor pretende é trabalhar no sentido de estabelecer políticas bem definidas, que garantam estabilidade interna e no mercado. Diante desta realidade, há motivos suficientes para que o desenvolvimento de programas que visem à implementação do álcool continuem em andamento", diz o Diretor da WBS Engenharia Ltda.



Luiz Augusto Hora, Diretor da Agência Nacional do Petróleo, ressalta a importância do álcool como combustível, mesmo diante das dificuldades existentes. "O Programa Nacional do álcool, pelas suas implicações ambientais e energéticas, assim como pela sustentação por parte da sociedade, deve ser preservado. É preciso que a atual situação de vulnerabilidade seja resolvida de forma transparente e, para isso, a colaboração do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) é imprescindível".



Novas Tecnologias



Mesmo em face das dificuldades que o setor enfrenta, ele está investindo em novas tecnologias, como a mistura álcool-diesel e a utilização da célula combustível a etanol.



O Programa Álcool-Diesel foi instituído, no final de 1997, pelo Conselho Interministerial do Açúcar e do álcool (CIMA) e vem sendo coordenado pelo Ministério de Ciência e Tecnologia, no final de 1997. O projeto tem o apoio do setor sucroalcooleiro que, como agente interessado, por meio das entidades Alcopar -- Associação dos Produtores de álcool e Açúcar do Paraná -- e a CEPAAL, tem investido intensamente no seu desenvolvimento.



O Programa está sendo desenvolvido no Paraná, utilizando o MAD8, que consiste na mistura de 8% de álcool anidro, mais 2,6% do aditivo derivado da soja, comercialmente conhecido como AEP 102, e 89,4% do diesel tipo C. Conforme testes realizados em laboratório (ITP/SP) e no campo, no ano de 1998, na cidade de Curitiba, essa mistura apresenta inúmeros benefícios ao meio ambiente por reduzir a quantidade de carbono lançada na atmosfera. Além de acontecer no processo uma produção menor de material particulado, também ocorre a oxigenação do óleo diesel, que propicia a queima do carbono livre, conhecido como "coque", que forma a conhecida fumaça negra. "A redução na opacidade (grau de enegrecimento) da fumaça obtida com a adição de 8% de álcool no óleo diesel atingiu níveis de 40% no caso do óleo diesel metropolitano, nos testes feitos em Curitiba. Os ensaios foram executados com motor OM 366 LA da Mercedez Benz, considerado ainda representativo da frota nacional", explica Edilson Bernardim Andrade.



Tendo conhecimento da viabilidade deste projeto, bem como das vantagens ambientais e sociais que ele oferece, a Prefeitura de Curitiba assinou o Protocolo de Intenções, em maio passado, com as empresas de transporte coletivo urbano e metropolitano, visando a implementação do seu uso. Em agosto e setembro, foram emitidas autorizações do IBAMA (Instituto Brasileiro do meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e da ANP (Agência Nacional do Petróleo), em atendimento à Portaria 180 da referida Agência, para permitir um uso profissional e em escala expandida da MAD8, a fim de subsidiar uma possível solicitação de licenciamento definitivo.



Edilson afirma que esta etapa do programa deverá contar com o significante apoio da Petrobras distribuidora S.A., que deverá preparar e distribuir o combustível a uma frota inicial de cerca de 300 veículos, consumindo 900 mil litros por mês.



O Programa Álcool-Diesel é um exemplo que comprova a importância do álcool no território nacional. Também se reveste de importância o desenvolvimento do reformador de etanol, para uso em células de combustível, com finalidade automotiva. Este projeto envolve o Ministério de Ciência e Tecnologia, o CENBIO, o IPT, a Unicamp e as indústrias alemãs Xcellsis, Degussa e Basf.



As células de combustível são dispositivos onde ocorre a combinação do hidrogênio com o oxigênio, formando água e eletricidade. Um veículo que se utilize desse equipamento é um veículo com motor elétrico, silencioso, mais econômico e, consequentemente, com menos emissões poluentes do que os atuais.



As fontes de hidrogênio podem ser várias. A solução mais viável, segundo José Dilcio Rocha, Engenheiro Químico, Doutor em Energia e Coordenador Técnico do Projeto, seria embarcar no próprio carro uma "fábrica de hidrogênio", denominada reformador. "O desenvolvimento de um sistema reformador de etanol/célula de combustível poderá a ser uma alternativa para o uso do etanol de cana-de-açúcar, produzido no Brasil, embora ele também possa ser alimentado com gasolina e metanol. A função do reformador será transformar estes combustíveis tradicionais em gases ricos em hidrogênio e, assim, suprir as células de combustível".



Já existem resultados positivos obtidos em outros países com gasolina, gás natural e metanol e espera-se que os testes com etanol também permitam sua utilização, com todas as vantagens estratégicas, ambientais, sociais e econômicas do uso do etanol como combustível.



"O desenvolvimento destes projetos, aliado à adoção de políticas adequadas e à garantia da oferta de álcool por parte dos produtores, nos dá a certeza de que o Programa Nacional do Álcool continuará sendo o maior programa comercial de biomassa energética do mundo", é a opinião de Suani Teixeira Coelho, Coordenadora do CENBIO.































































Potencial de Geração de Eletricidade com Biomassa nas Regiões Centro-Oeste e Sudeste
Potencial Teórico (MW)
Tecnologias
Regiões
Tipos de Biomassa
Baixo Rendimento
Rendimento Médio
Alto Rendimento
Centro-Oeste Cana-de-açúcar(1)
158
306
611
Madeira(3)
70
94
140
Resíduos Agrícolas(2)
1.561
2.082
3.122
Sudeste Cana-de-açúcar(1)
1.362
2.633
5.267
Madeira(3)
135
180
270
Resíduos Agrícolas(2)
1.449
1.932
2.899
Total  
4.736
7.226
12.309




Observações:

(1) Cana-de-açúcar: Avaliação do potencial a partir da disponibilidade de bagaço na usina.

Ano Base: 1998/1999 (UNICA)

Baixo Rendimento: 30 kWh/tc -- Geração na safra

Rendimento Médio: 100 kWh/tc -- Geração na safra/entressafra

Alto Rendimento: 200 kWh/tc -- Gaseificador/turbina a gás -- Geração na safra/entressafra

Bagaço Produzido: 0,3 t/t de cana (50% umidade)

(2) Resíduos Agrícolas: Avaliação do potencial a partir dos resíduos disponíveis no campo após a colheita.

Ano Base: Índices de Colheita -- 1996 (IBGE)

Quantidade Colhida -- 1995 (IBGE)

Baixo Rendimento: ciclos a vapor de pequeno porte

Rendimento médio: sistemas de gaseificação/motor

Alto Rendimento: ciclos a vapor de médio porte

Fator de carga = 70%

(3) Resíduos de madeira proveniente da Amazônia e processada na região:

Ano Base: 1997 Fonte: IMAFLORA/AMIGOS DA TERRA/IMAZON -- 1999

Baixo Rendimento: ciclos a vapor de pequeno porte

Rendimento médio: sistemas de gaseificação/motor

Alto Rendimento: ciclos a vapor de médio porte

Fator de carga = 70%
Fonte: CENBIO Notícias -- Ano 3 -- Nº 11
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