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Desafio da Colheita sem Queima
Publicado em 11/08/2006 às 00h00
Primeira usina do País a fabricar o açúcar orgânico, a São Francisco, de Sertãozinho, desenvolve há 15 anos um trabalho para suspensão da queima de cana-de-açúcar e começa a obter bons resultados ambientais. A empresa atingiu a auto-sustentabilidade agronômica, passando a produzir sem a necessidade de utilizar insumos externos. A reconstituição de matas com espécies nativas também possibilitou o reaparecimento de animais da flora local que não eram vistos nas regiões de canaviais há muitos anos. A família Balbo, proprietária da Usina São Francisco e também da Santo Antônio, na mesma cidade, sempre teve um papel revolucionário no desenvolvimento de máquinas e realização de experiências agronômicas. Há quase quatro décadas, começou a testar o uso de vinhaça e torta de filtro, resíduos de produção industrial, para fertilizar o solo.


Em meados da década de 80, a Organização Balbo deu os primeiros passos para iniciar a colheita de cana crua com o lançamento do Projeto Cana Verde, que previa também atingir a auto-sustentabilidade até o ano 2000. "Tínhamos consciência que o ideal seria colher cana sem queimar, mas sabíamos que isso provocaria mudanças para pior no ecossistema, como o aparecimento de pragas", conta o agrônomo Leontino Balbo Junior, diretor-agrícola da São Francisco. "Mas topamos o desafio porque acreditávamos nos ganhos ecológicos." Depois de elaborar um plano de reflorestamento das matas, o grupo deu início à primeira etapa do projeto em 1986 na São Francisco. O programa foi estendido dois anos mais tarde à Santo Antônio. Daquela época até hoje, já foram plantadas na área das duas usinas 750 mil árvores de espécies da flora brasileira. "Precisávamos aumentar as reservas, criando as chamadas ´ilhas de biodiversidade´, para possibilitar a descoberta de soluções naturais para os problemas que já prevíamos encontrar", explica Balbo Junior.


Com o trabalho, a São Francisco tem atualmente 14% de sua área de matas com vegetação nativa contra 5% do início do projeto. Em 1988, a usina testou pela primeira vez a colheita de cana crua com as colheitadeiras brasileiras, fabricadas para uso com cana queimada. O resultado não foi satisfatório e, no ano seguinte, o grupo fez uma parceria com a Santal, empresa de máquinas e implementos de Ribeirão Preto, para desenvolver um equipamento próprio, conseguindo colher 2% da cana sem queima. Em 1990, três protótipos de máquinas começaram a colher cana crua na fazenda, elevando o índice para 6%. Na safra seguinte, a usina colheu 20% do canavial sem queimar e foi ampliando progressivamente até atingir a totalidade dos 7,6 mil hectares em 1995.


Na Santo Antônio, que tem 11 mil hectares, o trabalho começou em 1993 e 75% da área foram colhidas sem queima na safra atual. "Os problemas foram muito maiores do que imaginávamos no início", diz o diretor agrícola. "A queima eliminou 15 pragas diferentes que começaram a atingir nossos canaviais e a palha que ficava no solo era favorável à proliferação." A usina iniciou um trabalho de controle biológico, criando em laboratório inimigos naturais dessas pragas. Ele explica que, no manejo orgânico não é objetivo eliminar a praga, mas sim restabelecer a cadeia alimentar. "Fazemos o controle e a interferência, como na agricultura tradicional, mas utilizando apenas produtos naturais." Em 1993, a usina começou a abandonar o uso de fertilizantes químicos em pouco mais de 10% da área. A auto-sustentabilidade foi atingida quatro anos antes do previsão inicial, em 1996.


Além de desenvolver em laboratório inimigos naturais das pragas, as fazendas utilizam apenas fertilizantes orgânicos. "Como não usamos fertilizantes químicos, a terra está repleta de minhocas. A palha, que antes era um problema, também fertiliza o solo quando entra em decomposição." O processo possibilitou a certificação da empresa, que passou a produzir açúcar orgânico em 1997. Hoje, há mais de 50 ilhas de biodiversidade espalhadas pelas fazendas, com uma infinidade de espécies de pássaros e mamíferos como capivaras e veados. As ilhas reúnem todas as 354 espécies de árvores nativas brasileiras catalogadas. Para cada grupo de quatro árvores plantadas, uma é sempre frutífera ou de frutas silvestres. Em dezembro, uma ecóloga deverá iniciar um trabalho de monitoramento.


Na primeira etapa, prevista para durar 15 meses, o trabalho deverá cadastrar os mamíferos e a flora. Em uma segunda etapa, devem ser catalogados também os pássaros. Energia O aumento da co-geração de energia do bagaço de cana também está nos planos ambientais da Organização Balbo. O grupo programa investir R$ 17 milhões em equipamentos e adaptações físicas para passar a fornecer 17 MW de energia a partir do início da próxima safra. Atualmente, a usina fornece 200 KW (0,2 MW) para a Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL) em um contrato ´interruptivo´, que possibilita suspensão do fornecimento. Quatro companhias já se mostraram interessadas em adquirir o excedente energético que a usina passará a produzir.
Luciana Cavalini
Fonte: Gazeta Mercantil
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