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A cultura da cana-de-açúcar e os solos de Minas Gerais
Publicado em 11/11/2006 às 00h00
Aptidão climática



A cultura de cana-de-açúcar (Saccharum spp.) parece ter tido a sua origem na Nova Guiné, onde através de migrações antigas, 8000 a 6000 a.C, expandiu-se para as Ilhas Solomon, Novas Hébridas e Nova Caledônia, Indonésia, Filipinas e Norte da Índia. Mais tarde, Alexandre, o Grande, na sua retirada da Índia trouxe-a para a Europa, onde, na primeira metade do Século XVI, foi transportada para o continente Americano.



A cana-de-açúcar é uma planta semitropical perene, sofrendo, portanto, as influências do clima em todo o curso do ano, ao contrário das culturas anuais que só sofrem influências em períodos limitados. As exigências climáticas da cultura canavieira podem diferir bastante, segundo a finalidade: açúcar de usinas, álcool, aguardente ou forragem. Normalmente, as lavouras para a produção de açúcar são mais exigentes em clima. Segundo BRASIL (12), os parâmetros climáticos testados como agentes atuantes na produtividade de cana-de-açúcar na região Centro-sul são:



a) Deficiência hídrica anual;
b) Temperatura média anual;
c) Precipitação na colheita;
d) Evapotranspiração anual;



A época de plantio depende das condições locais, pois que a brotação dos toletes exige calor e umidade suficientes. De acordo com BRIEGER & PARANHOS (15), em Minas Gerais há duas épocas: de janeiro a março e de setembro a outubro, sendo a primeira época a melhor, pois a cana encontra condições favoráveis de crescimento e desenvolvimento (praticamente dez meses para o crescimento, três meses para a maturação e cinco meses para o repouso), sendo cortada portanto com 18 meses. Daí a denominação de "cana de ano e meio".



A cana plantada de janeiro a março inicia seu ciclo com três meses favoráveis; permanece em repouso cinco meses (abril a agosto); em seguida, durante sete meses (setembro a abril), vegeta com toda a intensidade para então amadurecer nos meses do novo inverno, completando 18 meses de idade. A segunda época dá menos tempo para as fases vegetativa e de maturação. O rendimento é menor; é a chamada "cana de meio ano". Só se justifica o plantio nesta época, quando se precisa de matéria-prima a curto prazo.






Exigências climáticas -- Regime térmico



A cultura da cana-de-açúcar, para ser explorada economicamente com o objetivo de produção de sacarose, necessita de um mínimo de calor durante o ciclo vegetativo. Essa disponibilidade térmica, em termos de evapotranspiração potencial, segundo CAMARGO & ORTOLANI (18), corresponde a cerca de 850 mm anuais, como limite mínimo para as exigências térmicas anuais de cultura, e que corresponde aproximadamente à isoterma de 19°C.



Há diversos fatores ligados à taxa de crescimento da cana, que podem influenciar na sua maturação, rendimento de sacarose e presença de glicose no caldo.



É necessário que haja, durante o ciclo anual, pelo menos um período de repouso, para redução ou interrupção do crescimento da planta para que os produtos assimilados sejam armazenados na haste da cana, em vez de serem utilizados no processo de crescimento. Os fatores que têm maior influência nesse repouso são baixa temperatura e deficiência de umidade.



Temperatura abaixo de determinados limites reduzem substancialmente o crescimento da cana, sendo que este se torna insignificante para temperaturas médias diárias inferiores a 15,5°C. Verifica-se uma taxa de crescimento elevada, quando a temperatura média diária é superior a 21°C. Para que a maturação se processe é necessário que haja uma estação seca ou que ocorra um período de temperaturas médias inferiores a 21°C.



ZINK (68) considera como ideais para o cultivo da cana, as seguintes condições: calor suficiente (20 a 24°C), luz, umidade (mínima de 1.200 mm, sendo a maior parte durante a época de crescimento) e um período de condições opostas a estas, de maneira a favorecerem a maturação, a colheita e o transporte. OLIVEIRA FILHO (53) considera que durante o período de vegetação, as temperaturas médias deverão oscilar entre os 22 e 24°C e que, em temperaturas menores que 16°C, o crescimento fica reduzido a um mínimo. KISSELMAN (40) considera que a temperatura média anual ótima para a cultura de cana situa-se entre 20 e 28°C, acrescentando que nunca deverá cair abaixo dos 17°C. CAMARGO & ORTOLANI (18) afirmam que áreas sujeitas a geadas freqüentes e destrutivas devem ser consideradas como inaptas para o cultivo da cana.






Regime hídrico



Ao ponderarmos sobre as melhores condições hídricas para o cultivo da cana, temos que levar em conta que não é o total de precipitação anual o mais importante, mas sim a sua distribuição ao longo do ano ou, ainda melhor, a disponibilidade de água no solo à disposição da planta durante o ciclo vegetativo. Para se estimar esta disponibilidade, pode-se utilizar o balanço hídrico, segundo Thornthwaite e Mather, citados por CAMARGOS & ORTOLANI (18), baseado num sistema de contabilização da água no solo, que nos indica os déficits e excedentes hídricos no curso do ano.



Um regime hídrico em que não ocorrem déficits hídricos é contra-indicado para a cultura da cana-de-açúcar, por ser necessária a existência de um período seco, que favoreça a maturação em detrimento do crescimento. Por outro lado, quando a deficiência hídrica anual ultrapassa determinados limites, o desenvolvimento da planta poderá ficar seriamente reduzido. O limite adotado neste trabalho foi o de 200 mm de deficiência hídrica anual acima da qual a cultura necessita de irrigação suplementar.



ZINK (68) considera que a precipitação de 1200 mm anuais é suficiente para o bom desenvolvimento da cana, necessidade esta de mais água nos primeiros meses de crescimento e posteriormente de um período seco para a maturação. OLIVEIRA FILHO (53) informa que um mínimo de 850 mm no período vegetativo é suficiente para um bom crescimento da cana.






Zoneamento agroclimático



Os parâmetros adotados, para definir as exigências climáticas, foram baseados em dados existentes na literatura, inclusive nos de CAMARGO (21) para o zoneamento da aptidão climática para culturas comerciais em áreas de cerrado:



a) Temperatura média anual (Ta) = 21°C - as áreas com temperaturas superiores a esse limite foram consideradas ótimas para o cultivo da cana-de-açúcar, por apresentarem condições térmicas satisfatórias.



b) Temperatura média anual (Ta) entre 19°C a 21°C - as faixas dentro destes limites apresentam uma restrição térmica moderada para a cultura da cana para indústria açucareira, mas ainda mostram-se aptas para a produção de aguardente e forragem.



c) Temperatura média anual (Ta) entre 18 e 19°C - as faixas que apresentam temperatura dentro deste limite foram consideradas como inaptas para açúcar, porém apresentam-se marginais para aguardente e forragem. Abaixo deste limite térmico, é inapta para qualquer empreendimento.



d) Deficiência hídrica anual (Da) - 200 mm - as faixas que possuem chuvas inferiores a esse limite foram consideradas ótimas para o cultivo da cana por apresentarem condições hídricas satisfatórias.



e) Deficiência hídrica anual (Da) entre 200 a 400 mm, as faixas que possuem chuvas dentro destes limites apresentam deficiências hídricas sazonais pronunciadas, tornando-se recomendável o emprego de irrigação suplementar.



f) Deficiência hídrica anual = 400 mm, corresponde ao limite acima do qual torna-se imprescindível a irrigação.



g) Excedente hídrico anual (Ea) = 800 mm, apresenta o limite acima do qual ocorre excesso de umidade na estação vegetativa.



No preparo da carta de aptidão climática da cana-de-açúcar, foram consideradas as seguintes faixas:



Apta para a cultura; ótimas condições térmicas e hídricas. Temperatura média anual superior a 21°C e deficiência hídrica anual entre 0 e 200 mm. Esta faixa compreende a maior parte do Triângulo Mineiro, Alto Paranaíba e Alto São Francisco, com exceção de uma faixa que se estende por Patos de Minas, Araxá e Uberlândia que apresenta restrições térmicas; abrange uma grande área a leste do Estado que se estende de Teófilo Otoni até sul de Raul Soares e uma outra área no sudeste que abrange Muriaé, Uba e Leopoldina.



Restrita - Acusando deficiência hídrica sazonal pronunciada, pelo que a irrigação é recomendável tecnicamente. Temperatura média anual superior a 21°C e a deficiência hídrica anual entre 200 a 400 mm. Compreende a maior parte da metade norte do Estado, com exceção das terras altas da Serra do Espinhaço por carência térmica e as áreas semi-áridas do norte e nordeste por insuficiência hídrica; uma pequena área no extremo oeste do Triângulo e uma grande área a leste, abrangendo grande parte do vale do Rio Doce.



Restrita - Elevada carência hídrica que torna imprescindível o uso de rega. Deficiência hídrica anual superior a 400 mm. Esta faixa abrange as áreas semi-áridas do norte e nordeste do Estado.



Restrita com restrição térmica moderada. Temperatura média anual 18 e 21°C e deficiência hídrica anual entre 0 e 200 mm. Esta faixa abrange as áreas menos elevadas das Serras do Espinhaço e Mantiqueira e uma área no Triângulo que se estende por Patos de Minas, Araxá e Uberlândia.



Restrita - Restrição térmica moderada e deficiência hídrica sazonal pronunciada. Irrigação recomendável tecnicamente. Temperatura média anual entre 18 e 21°C e deficiência hídrica anual entre 200 e 400 mm. Compreende pequenas áreas dispersas, um ao redor de Araguari, outra junto a Grão Mogol e uma terceira a norte de Caparaó.



Inapta - Carência térmica e ocorrência de geadas severas ou excesso hídrico contínuo. Temperatura média anual inferior a 18°C ou excedente hídrico anual superior a 800 mm. Compreende as regiões mais altas das serras do Espinhaço e da Mantiqueira.



Exigência edáfica



Muito embora a cana-de-açúcar vegete nos mais diversos tipos de solos, desde os muito arenosos aos muito argilosos e compactos, trata-se de cultura relativamente exigente com respeito a solo. Os solos mais adaptados ao seu cultivo devem ser profundos, bem arejados e com boa capacidade de retenção de água e nutrientes.



Apesar de sua exigência em água, não se adapta bem em solos de baixadas úmidas (hidromórdicos e aluviais mal drenados). Os solos encharcados não possuem aeração suficiente às plantas, dificultando o desenvolvimento do sistema radicular e a assimilação dos nutrientes. Quando excessivamente úmidos, chegam a ocasionar a morte das plantas.



Em zonas sujeitas ao fenômeno da geada, devem ser evitados os terrenos baixos, de difícil circulação de ar. Nos grandes cultivos mecanizados, deve dar preferência aos solos com relevo praticamente plano, suave ondulado, a ondulado com declives até 12-13%. Para pequenos cultivos, onde se adota tração animal, áreas de relevo mais forte podem ser usadas, desde que tomadas as devidas precauções para o controle da erosão. No que tange às propriedades físicas, solos de textura média e argilosa, de estruturação granular e com profundidade efetiva acima de 1,50 m são dos mais recomendados ao bom desenvolvimento da cultura.
Fonte:Zoneamento Agroclimático do Est. Minas Gerais,Secret. de Est. Agricultura, Belo Horizonte,1980
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