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Proálcool, este programa ainda pode dar certo
Publicado em 10/09/2007 às 00h00
Concebido em 1973, sob atmosfera sufocante da primeira crise do petróleo, o Programa Nacional do Álcool (Proálcool) foi criado em 14 de novembro de 1975 pelas mãos do presidente Ernesto Geisel. Com disputada paternidade e extensa parentalha, o programa partiu das 74,5 milhões de toneladas de cana-de-açúcar moídas e 625,9 milhões de litros de álcool, produzidos na safra de 1974/1975 por um setor tradicionalmente envolvido com as mazelas e sucessos da história brasileira.



Mas não era só isso. A opção pelo álcool levou em conta competência de produção estabelecida; relativa facilidade para adaptar motores de automóveis e adequar a rede distribuidora de combustíveis; e tecnologia disponível na produção de bens de capital, expressos nas caldeiras e destilarias que deveriam ser fabricadas para processar o caldo da cana.



Em 1975, o Brasil produziu 9,98 milhões de litros de petróleo: 20% das necessidades nacionais. Mas já havia descoberto petróleo na bacia de Campos (final de 1974) e negociava contratos de risco para exploração de óleo no exterior, através da Braspetro. A partir de 1971, a escassez mundial de açúcar provocava euforia no País. O preço médio da commodity, 3,68 centavos de dólar por libra-peso, em 1970, chegou a 29,66 centavos de dólar por libra-peso, em 1974. Com posição destacada na pauta de exportações brasileiras da época, o açúcar pesava nas intenções do governo em manter crescimento acelerado com inflação sob controle gradual. Daí que o álcool nem era tão importante assim, em março de 1974, quando Geisel tomou posse.



Com investimentos de US$ 11,73 bilhões, boa parte do Banco Mundial, o programa carrega também fama de desmandos: subsídios aos produtores; dívidas assumidamente irrecuperáveis com o Banco do Brasil; exploração de trabalho infantil e de trabalhadores rurais; poluição dos rios pelo vinhoto; invasão de terras férteis pela monocultura da cana e agricultura atrasada. Tamanha visibilidade desses rótulos na embalagem desse combustível líquido alternativo deram à denominação de usineiro um lugar de destaque no pódio dos vilões nacionais.



Feitas as contas, o País aparece como maior produtor mundial de cana, de açúcar e de álcool; o maior exportador de açúcar e seu segundo maior consumidor. Atualmente, sem contar os 3,5 milhões de veículos ainda movidos a álcool hidratado, cada litro de gasolina consumido pelos brasileiros está devidamente batizado com um copo de álcool anidro. Na safra 1999/2000, 316 unidades produtoras transformaram 300,3 milhões de toneladas de cana em 17,6 milhões de toneladas de açúcar e 12,1 bilhões de litros de álcool, posicionando em 2% a participação da cadeia sucroalcooleira no PIB. E dando emprego a cerca de 1 milhão de brasileiros.



Em 1980, com 120 milhões de habitantes, a população brasileira havia crescido 30% numa década. Nesse ano, cerca de 22% das famílias brasileiras tinham automóveis, contra 10%, em 1970. O consumo de combustíveis automotivos (gasolina e diesel) mantinha inércia forte, baseada no modelo de transporte rodoviário alimentado pelos baixos preços do petróleo, pela rápida maturação dos investimentos em estradas, pela implantação da indústria automobilística, na década de 50, e pela necessidade contínua de novas fronteiras de produção primária para o desenvolvimento industrial. Se o petróleo está caro, vamos fazer álcool.



Em 1984, 19 de cada 20 carros (94,4%) saídos das montadoras rodavam com álcool puro. A política de subsídios cruzados e paridade com os preços do açúcar mantinha uma relação vantajosa entre o preço desse combustível e o da gasolina, em até 40%. Com a queda dos preços internacionais do petróleo, mudaram as contas, diluíram-se as vantagens. Daí em diante, a briga era o dinheiro: governo; dono dos preços e empresários, donos de canaviais e destilarias. A falta de álcool, em 1989, foi um golpe que atingiu o consumidor e faz sangrar o programa até hoje. Em 1999, a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) registrou a venda de 10.942 veículos a álcool.



Atualmente, a produção média do País é de 1,1 milhão de barris de petróleo/dia em seu território e o governo persegue a auto-suficiência ao mesmo tempo que insere o gás na matriz energética. Também em 1999, exportaram-se 12,12 milhões de toneladas de açúcar, um recorde histórico que posicionou a commodity como responsável por 3,89% das exportações brasileiras.



Os negócios do álcool e sua sobrevivência baseiam-se no crítico equilíbrio gerencial de utilizar a energia da cana para mover automóveis ou alimentar pessoas. Foi isso que deu certo e manteve o programa vivo até hoje, apesar das suas várias passagens pela UTI. O conhecimento adquirido confere ao País incontestável diferencial tecnológico que já se reflete nos custos de produção e pode eliminar de vez, no futuro, subsídios de quaisquer natureza.













































size="2">Consumo de Energia

(Em milhões de toneladas equivalentes de petróleo)

Gás Natural

4,96

Outros

12,71

Lenha e
Carvão

17,05

Produtos de
Cana

23,98

Combustíveis
(*)

80,50

Energia
Elétrica

89,03

Total

228,23

(*)
Transportes

48,19

Fonte:
Balanço Energético Nacional 1998





No início, adaptação dos motores



Antigamente tudo era mais difícil, mas do primeiro carro a álcool ninguém esquece. Apesar da queima da palha da cana durante a colheita, o álcool conquistou defensores ambientais porque emite menos poluentes do que a gasolina. Foi com esse mote, aliás, que o ministro Shigeaki Ueki, das Minas e Energia, no governo Geisel, lançou em São Paulo, o blend ecológico: cerca de meia dose de álcool num litro de gasolina.



Dos primeiros carros a álcool entretanto, ninguém esquece. Com adaptações apressadas dos motores tradicionais, os modelos chegaram ao mercado ostentando insuperáveis problemas de partida a frio e acelerado desgaste de carburadores pela corrosão de etanol. No entanto, estes problemas são coisas do passado. O desenvolvimento dos carros a álcool serviu ao aperfeiçoamento dos motores a gasolina; a injeção eletrônica põe os dois motores em pé de igualdade e o desempenho de consumo dos últimos modelos de porte fabricados (como o Ômega, da GM) é semelhante. Os sensores de combustível desenvolvidos pela Bosch, e já em uso nos EUA, apontam em médio prazo para motores capazes de rodar com qualquer mistura de etanol e gasolina.



No aperfeiçoamento dos processos industriais, o bagaço de cana gera energia e o vinhoto (rico em potássio) volta às lavouras para a fertilização e irrigação: passaram da categoria de resíduos para a de insumos. Junto com universidades e centros de pesquisas do governo, o setor sucroalcooleiro investiu em melhoramento genético da cana e combate biológico de pragas. Desde o início do programa, os cortes de custos de produção do álcool foram, em média, de 3,2% ao ano, no Centro-Sul e de 1,9% ao ano, no Nordeste. Só o Centro de Tecnologia da Copersucar, instalado em Piracicaba/SP, tem aplicado cerca de US$ 25 milhões/ano em pesquisas.



A lavoura brasileira de cana cobre cerca de 5 milhões de hectares de terras, algo como 5% da área agricultável do País, e os fortes embates com os sindicatos rurais acabaram promovendo maior segurança para os trabalhadores. Em São Paulo, o salário do cortador de cana situa-se na faixa de R$ 300,00/mês e os empresários afirmam que 98% deles têm carteira assinada. Já no Nordeste, com menor produtividade, encontram-se salários menores do que o mínimo.



Pressões sociais e alertas internacionais tiraram muitas crianças da lavoura e das usinas a ponto de se registrar empresas sucroalcooleiras reconhecidas e premiadas pela Fundação Abrinq pelos Direitos das Crianças. Aceitas pelas comunidades internacionais, pesquisas brasileiras demonstraram que a ação do cultivo de cana-de-açúcar chega a absorver quase um quinto da emissão total de carbono resultante da queima de combustíveis fósseis do Brasil: uma redução de 39 milhões de toneladas de CO2, por ano.






Aumento de Produtividade



O futuro da cadeia sucroalcooleira aponta para as empresas que continuam crescendo, investindo em tecnologia, processos, redução de custos e aumento de produtividade. A capitalização se fortalecerá em processos de fusão, parceira, participações acionárias; blocos de comercialização e sinergia no desenvolvimento de outros negócios.



No Centro-Sul, o processo acolherá fortes estratégias de logística, concentrando os canaviais próximos às usinas e acelerando a mecanização. Um novo desenho da plantação abandonará os solos em declive e promoverá mudanças sócio-econômicas em tradicionais cidades canavieiras. Haverá menos empregos.
Fonte: Gazeta Mercantil -- Edição Especial de 80 anos - Anthony de Christo -- 03/04/00
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