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Clientes canadenses não querem açúcar de cana transgênica
Publicado em 14/07/2020 às 14h20
Algumas refinarias de açúcar do Canadá já começam a exigir do Brasil garantias de que o açúcar bruto que compram no país não seja produzido a partir de cana-de-açúcar transgênica, afirmou ao Valor um executivo de uma importante trading que atua no segmento.

A preocupação surgiu este ano e "caminha para aparecer explicitamente nos contratos, com cláusulas bastante claras e específicas", disse. Segundo a fonte, os canadenses estão "tentando entender" a origem do açúcar vendido em seu mercado e "preferem" que não seja de cana geneticamente modificada.

As usinas que estão fechando esses contratos estão aceitando as exigências porque ainda não produzem açúcar de cana transgênica. Porém, quando essa oferta chegar ao mercado, poderá haver um custo adicional para sua segregação.

É comum que compradores de commodities agrícolas que preferem não trabalhar com produtos transgênicos incluam a restrição nos contratos, mas essa prática ainda é mais comum nos grãos.

O questionamento de clientes canadenses ocorre apesar de a agência responsável por avaliar a segurança nutricional de alimentos naquele país, a Health Canada, ter sido uma das primeiras no mundo a aprovar o uso do açúcar produzido a partir de cana transgênica, já em 2018.

O mercado canadense é pouco representativo para as exportações brasileiras de açúcar. Desde o início do ano, oito navios saíram dos portos brasileiros com cargas destinadas ao Canadá, e há mais duas embarcações esperando carregamento, conforme dados da agência marítima Williams Brazil.

No primeiro semestre, o Brasil exportou 287 mil toneladas aos canadenses, ou apenas 2,5% do volume total embarcado. De qualquer forma, exigências do gênero podem ser copiadas por outros mercados mais importantes, o que as usinas gostariam que seja evitado.

Segundo a União das Indústrias de Cana-de-Açúcar (Unica), até o momento nenhuma usina sucroalcooleira brasileira começou a produzir açúcar a partir da moagem de cana transgênica. Embora já existam 12 mil hectares ocupados em mais de 100 usinas com as variedades modificadas geneticamente pelo Centro de Tecnologia Canavieiera (CTC), as plantas ainda estão sendo semeadas para serem replicadas e, posteriormente, cultivadas para a produção.

O presidente da Unica, Evandro Gussi, disse não ter conhecimento de vetos ao açúcar de cana transgênica e que, em conversas com os principais compradores da commodity brasileira, a recepção é positiva. "Açúcar é uma substância pura, não tem traços genéticos. Então não tem traços de transgenia".

Para Gussi, não é preciso um rótulo nas embalagens de açúcar ou de produtos com o açúcar feito da cana transgênica, já que não há distinção entre a molécula do açúcar feito da cana convencional. A posição é compartilhada pelo governo, embora em outras cadeias produtivas, como a soja, a rotulagem seja obrigatória mesmo sem alteração molecular

Em janeiro, as indústrias sucroalcooleiras padronizaram um documento que poderá ser enviado a compradores caso surjam questionamentos, citando um parecer de 28 de março de 2018 da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) que atesta que o açúcar "não é um organismo geneticamente modificado e nem um derivado deste".

"As usinas sabem que este mercado é competitivo e que sempre querem colocar barreiras, então estão se precavendo", afirmou Cid Caldas, coordenador de agroenergia do Ministério da Agricultura.

No mercado internacional, porém, já existe demanda específica por açúcar feito de matérias-primas não transgênicas por causa do histórico com as beterrabas, fonte para a produção de açúcar sobretudo na América do Norte e na Europa. Nas lavouras americanas, praticamente toda beterraba cultivada pela indústria açucareira possui modificação genética para garantir tolerância ao herbicida glifosato.

A expansão da beterraba transgênica nos Estados Unidos acabou levando algumas indústrias de alimentos a buscarem açúcar feito de matérias-primas sem modificação genética, o que criou um nicho de mercado.

A trading americana CSC Sugar foi uma das que se especializaram nesse nicho. Para suprir essa demanda, passou inclusive a trabalhar apenas com açúcar feito de cana - já que, até então, a gramínea não havia sido geneticamente modificada - e ainda não incluiu o futuro produto brasileiro na lista de preocupações.

"Se o Brasil começar a fazer cana transgênica, a história vai mudar. Se não for criado um certificado para garantir essa demanda, é menos provável comprarmos açúcar do Brasil, porque é muito difícil separar os açúcares", disse Diane Stevenson, diretora de marketing e sustentabilidade da CSC Sugar. Ela estima que, nos EUA, a demanda por açúcar de matéria-prima não transgênica é de ao menos 200 mil toneladas ao ano.
Fonte: Valor Econômico
Texto publicado no boletim da SCA
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