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O lado B do World Energy Outlook da IEA
Publicado em 16/10/2020 às 08h28
Embora a edição deste ano inclua, pela primeira vez, um cenário com medidas para limitar aquecimento global a 1,5?C, o lançamento do relatório Perspectivas Energéticas Mundiais (World Energy Outlook - WEO) da Agência Internacional de Energia (IEA) foi acompanhado de fortes críticas de setores científicos e organizações financeiras.

Desalinhamento dos cenários desenhados pela IEA com as metas estabelecidas pelo Acordo de Paris, supervalorização do papel dos combustíveis fósseis e da energia nuclear, e o otimismo exagerado em relação aos mecanismos de captura e armazenamento de carbono (CCS) figuram entre as críticas.

Além disso, analistas avaliam que a agência historicamente subestima o crescimento das energias renováveis e seu potencial para reduzir as emissões de gases de efeito estufa e limitar o aquecimento global.

Segundo estudo da University of Technology Sydney, na Austrália, apresentado horas antes do lançamento do WEO no dia 13, o entusiasmo da agência em relação às tecnologias de CCS se deve ao fato de que elas poderiam tornar as fontes fósseis viáveis por mais tempo em um cenário de cobranças para a descarbonização da economia.

Entretanto, metas climáticas mais ambiciosas, diz o documento australiano, reduzem o interesse em medidas de mitigação desse tipo, o que não tem sido observado pelos relatórios da AIE.

"Além da subestimação bem conhecida e de longa data da IEA sobre o crescimento da energia solar fotovoltaica; algumas fontes, como eólica offshore, não foram incluídas até que já estivessem contribuindo significativamente para o fornecimento de eletricidade", avalia Sven Teske, autor do estudo.

A percepção de que a IEA age para manutenção dos investimentos em combustíveis fósseis também é compartilhada pela ONG Reclaim Finance, cuja análise aponta armadilhas que impedem que os cenários climáticos sejam alinhados com o Acordo de Paris.

A inclusão de um cenário para o mercado de energia que incorpora a meta de limitar o aquecimento global a 1,5?C foi o segundo aceno da AIE para a sustentabilidade este ano.

No primeiro semestre, a agência publicou um relatório especial de Recuperações Sustentáveis pós-COVID e convocou uma Cúpula de Transição Limpa, com ministros de energia de dezenas de países.

O que diz o WEO 2020?

Petróleo é o combustível mais afetado pela covid-19, puxando a queda em investimentos no setor de energia que, no geral, devem recuar 18% este ano, na estimativa da IEA. A demanda total por energia deve cair 5% no ano e as emissões podem recuar 7%, reflexo da maior resiliência de fontes limpas durante a crise.

A partir deste retrato de 2020, a agência ressalta que o futuro é incerto. Dentre os seus cenários, chama a atenção um efeito prolongado da queda na demanda por energia, que sai de um crescimento de 12% ao ano para 9% até 2030 -- horizonte em que também é possível atingir o pico da demanda por petróleo.

O estudo é publicado ao mesmo tempo em que importantes capitais da Europa começaram a fechar novamente, impondo restrições, ainda que pontuais, para conter uma segunda onda de contaminação pela covid-19, menos letal, mas capaz de desacelerar, novamente, o consumo de combustíveis.

Em meio às incertezas, uma aposta no crescimento da fonte solar como grande supridora de energia. As usinas fotovoltaicas estão mais competitivas que concorrentes à base de carvão e gás natural na maioria dos países, destaca a IEA.

No cenário de políticas declaradas, a agência estima que a solar fotovoltaica poderá atender a um terço da demanda por energia elétrica nova até 2030, um crescimento de 13% ao ano.

Entendendo os cenários. O Perspectivas Energéticas Mundiais mapeia as expectativas de oferta e demanda de energia para médio e longo prazos, com publicações anuais desde 1977. É uma referência no tema, com potencial de influenciar decisões de governo e de empresas.

Essa influência pode ser observada em um informe recente da consultoria Analytica Advisors, sobre o alinhamento dos relatórios da IEA com as decisões de investimento das principais companhias de óleo e gás.

Tipicamente, o relatório traz três cenários, que podem mudar de nome ao longo dos anos, mas em essência se dividem em pessimista, provável e otimista. Na edição deste ano foi incluído um quarto cenário chamado de "net zero emission" (NZE2050).

Cenário de Políticas Declaradas (STEPS): a covid-19 é gradualmente colocada sob controle em 2021 e a economia global retorna aos níveis anteriores à crise no mesmo ano. Este cenário reflete todas as intenções e metas de política anunciadas hoje.

Cenário de Recuperação Atrasada (DRS): elaborado com as mesmas premissas políticas do STEPS, mas considerando que uma pandemia prolongada causa danos duradouros às perspectivas econômicas. A economia global retorna ao seu tamanho pré-crise apenas em 2023, e a pandemia inaugura uma década com a menor taxa de crescimento da demanda de energia desde 1930.

Cenário de Desenvolvimento Sustentável (SDS): aposta em uma "onda" de investimentos em energia limpa, impulsionando o crescimento das tecnologias de energia solar, eólica e de eficiência energética. Os próximos 10 anos veriam também um grande aumento da captura, utilização e armazenamento de hidrogênio e carbono, e um novo impulso por trás da energia nuclear. Os pressupostos sobre saúde pública e economia são os mesmos dos STEPS.

Net Zero Emissions by 2050 (NZE2050): estende a análise SDS. Considera as ambições crescentes de países para alcançar emissões líquidas zero até meados do século. Inclui a primeira modelagem detalhada da IEA do que seria necessário nos próximos dez anos para colocar as emissões globais de CO2 no caminho do zero líquido até 2050.
Nayara Machado
Fonte: Epbr
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