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A crise climática afeta as decisões reprodutivas da juventude
O impacto da crise climática e ambiental atingirá essencialmente as crianças e adolescentes atuais mas, principalmente, as novas gerações que ainda vão nascer
Publicado em 23/09/2021 às 14h06
Uma pesquisa internacional feita com jovens de dez países mostra que os jovens sofrem com ansiedade sobre o futuro do planeta e uma parcela cada vez maior hesita em relação à possibilidade de ter filhos.
Já não é hegemônica a ideia de que o futuro será melhor do que o presente e do que o passado. As incertezas quanto a crise climática e ambiental estão afetando as decisões reprodutivas da juventude. Consequentemente, afeta a relação intergeracional.

Desde a Revolução Industrial e Energética, que teve início no final do século XVIII, as gerações passadas, no longo prazo, tiveram sucesso em promover a transição demográfica (redução das taxas de mortalidade, aumento da esperança de vida e redução das taxas de natalidade), promover a transição urbana (passagem de uma economia rural e agrária para uma economia urbano-industrial e de serviços) e melhorar os níveis de consumo e bem-estar da população mundial. A despeito das desigualdades, a herança civilizacional foi positiva nos últimos 250 anos. Porém, a herança ambiental foi negativa, pois o aquecimento global e perda de biodiversidade podem gerar um colapso ecológico sistêmico, afetando principalmente a novas gerações e as gerações que ainda nem nasceram.

O enriquecimento humano se deu às custas do empobrecimento da natureza e as novas gerações estão percebendo que este caminho é insustentável. Grande defensor do crescimento econômico, o famoso economista John Maynard Keynes (que não teve filhos) dizia: "no longo prazo todos estaremos mortos". Traduzindo para a situação atual, as gerações mais velhas estarão mortas antes do cenário de colapso ambiental que ajudaram a construir. O drama será vivido pelas jovens gerações atuais e pelas gerações que ainda vão nascer.

Segundo a pesquisa global -- Hickman e Marks (The Lancet, 07/09/2021) -- realizada com jovens de Brasil, Austrália, EUA, Reino Unido, Índia, Nigéria, Filipinas, Finlândia, Portugal e França:

75% disseram que o futuro é assustador;

65% disseram que seus governos estão fracassando junto aos jovens no combate ao aquecimento global;

83% disseram que as pessoas não cuidam bem do planeta;

55% disseram que terão menos oportunidades do que seus pais tiveram;

39% disseram não ter certeza de que querem ter filhos.

Segundo reportagem da BBC (14/09/2021), os dados coletados no Brasil mostram que os jovens brasileiros têm um nível de ansiedade em relação ao futuro climático no planeta acima do nível mundial (que já é bastante alto). A maioria dos jovens entrevistados no Brasil sentem que o governo está falhando com eles (79%). A maior parte dos jovens brasileiros ouvidos (92%) também acredita que a humanidade falhou em tomar conta do planeta e acham que o futuro é assustador (86%). Quase metade (48%) dos brasileiros entrevistados disseram que as mudanças climáticas os fazem ficar hesitantes em relação a ter filhos. Essa proporção ficou bem acima da média mundial (39%).

Relatório divulgado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), no dia 20 de agosto de 2021, mostra que metade das crianças e adolescentes do mundo (1 bilhão de pessoas) está extremamente exposta aos impactos da crise climática e as novas gerações serão, proporcionalmente, as mais penalizadas pelas mudanças climáticas.

Utilizando dados geográficos de alta resolução, o relatório da Unicef apresenta novas evidências globais de quantas crianças estão atualmente expostas a uma variedade de perigos climáticos e ambientais, choques e estresses. Por exemplo, o relatório lista os eventos de início repentino e moderadamente repentino que vão afetar as jovens gerações:

820 milhões de crianças (mais de um terço do total de crianças no mundo) estão atualmente expostas às ondas de calor. É provável que a situação se agrave, na medida em que a temperatura média da Terra aumenta e padrões climáticos se tornam mais erráticos. O ano de 2020 ficou empatado como o ano mais quente já registrado.

400 milhões de crianças (aproximadamente 1 a cada 6 crianças no mundo) estão atualmente expostas aos ciclones. É provável que a situação se agrave, na medida em que ciclones de alta intensidade (isto é, Categorias 4 e 5) aumentaram em frequência, aumentando a intensidade de precipitações, e que faz com que os padrões de ciclone mudem.

330 milhões de crianças (1 a cada 7 crianças no mundo) estão atualmente altamente expostas à inundações fluviais. É provável que a situação se agrave, na medida em que as geleiras derretem e as precipitações aumentam, devido ao alto teor de água na atmosfera, que é resultado de maiores temperaturas médias.

240 milhões de crianças (1 a cada 10 crianças no mundo) estão atualmente altamente expostas à inundações costeiras. É provável que a situação se agrave, ao passo que os níveis do mar continuam aumentando, com os efeitos consideravelmente ampliados quando combinados com tempestades.

Ou seja, a maioria dos adultos de hoje não estarão vivos em 2100 e nem vão vivenciar os maiores danos da emergência do clima.

O impacto da crise climática e ambiental atingirá essencialmente as crianças e adolescentes atuais mas, principalmente, as novas gerações que ainda vão nascer.

Segundo as projeções populacionais da Divisão de População da ONU (feitas em 2019) está previsto o nascimento de 10,2 bilhões de bebês entre 2025 e 2100. Lastimavelmente, cada nova criancinha receberá um boleto na maternidade com o valor da dívida ambiental a ser paga com "sangue, suor e lágrimas" na guerra contra o aquecimento global e a perda de biodiversidade.

Desta forma, os jovens estão indo para as ruas para protestar contra a herança maldita e para lutar contra a possibilidade de um colapso ecológico. Por isto existe a convocação da Greve climática global para o dia 24 de setembro de 2021.

O futuro está nas mãos da juventude atual que vai decidir quantos filhos quer ter enquanto for para as ruas lutar contra o colapso ecológico sistêmico.
Fonte: Ecodebate
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