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Corumbá entra na rota bioceânica ferroviária
Publicado em 13/10/2021 às 17h35
Argentina, Bolívia e Brasil são vizinhos e mantêm relações comerciais, mas algumas conexões entre eles estão soltas, principalmente, em termos econômicos e culturais. Uma tentativa para aproximar os três países está sendo desenhada, e o elo proposto para ligar essas localidades é a ferrovia.

No Brasil, o meio de transporte ainda está defasado, mas na Bolívia há um ramal de 1.244 km em pleno funcionamento e na Argentina a estrutura é utilizada normalmente no transporte de cargas.
A proposta aberta de ser instalada uma rota bioceânica ferroviária começou a ser ventilada em 2017, no governo boliviano de Evo Morales. Os acordos não avançaram muito ao longo dos três últimos anos, mas ganharam impulso agora em 2021.

A principal materialização dessa negociação é a assinatura de um acordo de cooperação comercial envolvendo Corumbá, governo boliviano e câmaras comerciais das cidades de San Salvador de Jujuy, Salta e San Miguél de Tucumán (Argentina).

O documento foi elaborado no Brasil pelo ministro de carreira diplomática do Ministério das Relações Exteriores João Carlos Parkinson e já teve o aceite da prefeitura de Corumbá, que é um elo dessa negociação. A proposta agora está na Argentina, sendo analisada por representantes das câmaras de comércio exterior dos três municípios que ficam no norte do país vizinho.

"De fato, a negociação avançou muito neste ano, por conta de demandas que surgiram de Corumbá e de empresas que estão em Mato Grosso do Sul. O que se propõe é uma facilitação do comércio entre os países, agilização de processos", aponta o diplomata e coordenador-geral de Assuntos Econômicos para América do Sul, América Central e Caribe do Ministério das Relações Exteriores, João Carlos Parkinson.

"O governo boliviano também se envolveu fortemente. Em termos de estrutura, a Bolívia tem uma ferrovia que completa todo o trajeto necessário entre Argentina e Brasil, entrando por Corumbá. Na Argentina, eles também têm a ferrovia em funcionamento. Só existe uma questão: para a ligação com a Bolívia, é necessária a construção de duas pontes. O transporte rodoviário está substituindo esse trecho [80 km] atualmente", completou.

Há cinco anos ele atua diretamente em negociações para viabilizar esse ramal ferroviário no transporte de cargas. O potencial de cargas a serem transportadas nesse trajeto é de 3,5 milhões de toneladas. O sistema ferroviário boliviano transporta em torno de dois milhões de toneladas anualmente.

INFRAESTRUTURA

Em termos de infraestrutura, 80 km no norte da Argentina têm trecho obsoleto de ferrovia e dependem da construção de duas pontes para permitir que todo o trajeto ferroviário entre San Salvador de Jujuy e Yacuiba (Bolívia) possa ser percorrido.

Essas obras estariam avaliadas em torno de US$ 60 milhões, e o governo chinês chegou a manifestar interesse em custear o projeto, porém, a proposta ainda não avançou.

Fatores econômicos estão pesando para que o ramal seja efetivamente instalado. São diferentes empresas que têm potencial para se beneficiarem do sistema ferroviário que pode ser instalado até Corumbá. No estudo de viabilidade da rota biocêanica férrea foi apontado o caso da Arcelor Mittal, que tem planta em Três Lagoas.

A empresa de siderurgia tem cerca de 70% do mercado de vergalhões na Bolívia. Essa produção já é despachada por trens a partir da região de fronteira, via Corumbá, mas a importação de cobre e outros produtos pela indústria brasileira chega a Três Lagoas pelo Porto de Santos e portos no Sul.

O acordo pode permitir que as mineradoras instaladas na região norte da Argentina forneçam a matéria-prima e que a rota em discussão seja a via de transporte. A importação de cobre e outros produtos envolve cifras de US$ 134 milhões.

A Arcelor Mittal faz a importação de cobre do norte da Argentina, que vai de trem até portos do Chile, e a matéria-prima percorre todo o trajeto por oceano até o Brasil. Depois disso, a commodity chega a Três Lagoas em caminhões, um trajeto de 30 dias. A ferrovia ligando o norte da Argentina ao Brasil, via Bolívia, encurta essa viagem para até 10 dias.

A relação de produtos que podem ser transportados por linha férrea a partir de Corumbá nos dois sentidos para Bolívia, Argentina e portos do Chile, que despacham para o mercado asiático, envolve vergalhões, soja, celulose, produtos manufaturados, fertilizantes, sal, sulfato de cálcio, ureia, feijão, cobre, zinco, lítio, vinhos, entre outros.

"Neste ano, tivemos uma rodada de discussões e a apresentação das potencialidades. Temos um cenário em que falta muita informação comercial para ter a parceria. Por isso, no primeiro encontro virtual que foi feito, houve a apresentação por parte dos portos do Chile das estruturas que existem e das empresas que estão em atuação", explica João Parkinson.

"Houve também uma apresentação das empresas que estão no norte da Argentina. Ao todo, foram seis lives promovidas entre governos municipais, empresários e câmaras de negócios", completa.

TRANSPORTE

Nessas lives, promovidas com representantes de Corumbá, Salta, Jujuy e Tucumán, além de empresários com atuação em todas essas regiões, também foi discutido o preço do frete praticado.

O custo do transporte marítimo fica em torno de US$ 40 por tonelada. Esse é o valor médio cobrado na Bolívia para o transporte ferroviário. A vantagem estaria no prazo de entrega de mercadorias.

Consultor de negócios na Argentina, Federico Vallejo está atuando diretamente nas negociações envolvendo câmaras de negócios e empresas do norte da Argentina, Bolívia e prefeitura de Corumbá, além do Ministério das Relações Exteriores brasileiro.

Em entrevista ao Correio do Estado, ele comenta que o estudo sobre o contrato elaborado no Brasil para permitir a instalação de um núcleo de negócios baseado em Corumbá deve ser concluído em duas semanas.

"Houve diferentes conversas, e avançamos em vários quesitos. Posso dizer que já estamos, hoje, 70% acertados para a formalização dessa parceria. Ainda existem algumas barreiras que devemos superar, temos a questão da língua também, mas tudo isso está sendo discutido", comenta o consultor.

"A intenção é termos um acordo para atuar no turismo e no comércio. Somos vizinhos e não conhecemos uns aos outros. Agora estamos nos conhecendo para construir parcerias", completa.

João Parkinson, que está em Brasília e conhece a realidade de Corumbá, bem como das três cidades no norte da Argentina, sugere que o acordo ainda precisa superar algumas barreiras de postura, principalmente do lado brasileiro.

"Estamos falando nessa negociação de uma mudança de paradigma. Vai ser preciso transformar a visão do empresário de Corumbá, por exemplo, para ele se entender como um importador. Será preciso também ter uma interação maior entre empresários e autoridades públicas", analisa o diplomata.

"A condição de isolamento que existe para Corumbá também existe nas cidades do norte da Argentina. Essa rota pode representar novas possibilidades", completa.

TURISMO

Além das negociações comerciais, o turismo entre as regiões está sendo observado. O Ministério do Turismo foi inserido nas reuniões realizadas para permitir que haja a discussão de como o setor pode ser promovido, tanto para turistas argentinos como para os bolivianos.

Além de Corumbá, empresários e câmaras de San Salvador de Jujuy assinaram acordo com a Associação Comercial e Industrial de Campo Grande há cerca de um mês.

Secretário de Desenvolvimento Econômico e Sustentável, Cássio Costa Marques aponta que o interesse das empresas de mineração existentes no norte da Argentina em acessar o mercado brasileiro está crescendo.

Além disso, a mineração em Corumbá pode ganhar um novo ramal de escoamento da produção de mais de 680 mil toneladas para o exterior, sem depender da hidrovia e das intempéries do nível do Rio Paraguai.

"Acreditamos fortemente que um dos benefícios que esse acordo que estamos tentando fechar vai ter é que a ferrovia Malha Oeste vai ganhar um novo interesse. Vai faltar o Brasil ter uma linha em funcionamento para permitir uma ligação", sugere.
Fonte: Correio do Estado
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