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Brasil e Europa: Parceria estratégica para um agronegócio sustentável
O campo brasileiro cresceu e pode inspirar os europeus em ganhos de eficiência. Em vez de competir, os setores de lá e de cá devem cooperar
Publicado em 02/04/2025 às 11h32
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Agronegócio
(Jefferson Bernardes/Preview.com/VEJA)
O Brasil tornou-se, ao longo das últimas décadas, um protagonista incontornável no cenário global do agronegócio. De importador de alimentos básicos nos anos 1980, o país transformou-se em líder mundial na exportação de soja, carne bovina e aves, além de ocupar posições de destaque em setores como café e açúcar. Esse feito foi construído por meio de uma combinação de reformas políticas, inovações tecnológicas e espírito empreendedor de seus agricultores.

Entretanto, a relevância do agronegócio brasileiro no mercado internacional não vem sem críticas. Preocupações legítimas sobre desmatamento, relações trabalhistas e práticas de negócios têm alimentado debates intensos, especialmente na Europa. Para muitos, colaborar mais de perto com o Brasil nesse setor é comportamento visto como um dilema ético. Mas essa visão simplista desconsidera uma oportunidade maior: a de engajar-se ativamente em um diálogo transformador que una produtividade e sustentabilidade.

O Brasil e a Europa podem, juntos, construir uma parceria estratégica que vá além do comércio e se torne um exemplo de colaboração global na busca por segurança alimentar e práticas sustentáveis. Esse é um desafio que exige coragem política e uma visão pragmática, capaz de superar narrativas polarizadas e priorizar soluções compartilhadas.

A agricultura europeia enfrenta desafios próprios, historicamente sustentada por subsídios e voltada para mercados locais e de nicho. Precisa encontrar formas de modernizar-se, sem perder suas características culturais e sociais. Nesse contexto, o Brasil não deve ser visto como um competidor, mas como uma fonte de aprendizado. O uso de sistemas produtivos integrados e a adoção de tecnologias de precisão podem inspirar práticas mais eficientes e sustentáveis na Europa, sem comprometer a identidade de suas comunidades rurais.

O agronegócio brasileiro tem origem em uma trajetória singular de superação. No início da década de 1990, o país passou por reformas que desmantelaram monopólios estatais e abriram espaço para o mercado. O setor, antes controlado por instituições como o Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA) e o Instituto Brasileiro do Café (IBC), foi impulsionado pela competição e pela autonomia. Sem redes de proteção tradicionais, os agricultores brasileiros assumiram riscos consideráveis, apostando em inovação, eficiência e adaptação tecnológica.

Esse ambiente de dinamismo resultou em uma verdadeira revolução. O Cerrado, antes considerado impróprio para a agricultura, foi transformado em uma das regiões mais produtivas do mundo, sem prejuízo das questões de sustentabilidade. Técnicas como a correção do solo, o plantio direto e a integração entre lavoura e pecuária permitiram ao Brasil ampliar sua produção sem a necessidade de expandir significativamente a área cultivada. Hoje, 87% do crescimento da produção agrícola brasileira provém de ganhos de produtividade, e não da conversão de novas terras.

No entanto, o sucesso do agronegócio brasileiro também expôs desafios. O desmatamento ilegal na Amazônia é uma preocupação legítima, e a dificuldade em aplicar e monitorar leis ambientais é um problema que prejudica a imagem do país. Por outro lado, críticas que ignoram os avanços significativos realizados pelo Brasil, como o Código Florestal e as tecnologias de baixo carbono, são contraproducentes e demonstram a falta de conhecimento da realidade. As iniciativas de comunicação sobre a evolução dos mecanismos de defesa do meio ambiente e da qualidade dos produtos agropecuários nacionais junto ao mercado internacional ainda são insuficientes. Reconhecer o progresso é essencial e um primeiro passo para abrir um espaço de diálogo construtivo.

Mudanças estruturais conduzidas recentemente pelos Estados Unidos estão redesenhando o comércio internacional em alta velocidade e intensidade, exigindo ajustes das economias globais. Esse novo contexto reforça a importância de relações comerciais estratégicas baseadas em previsibilidade e eficiência. A União Europeia pode se beneficiar ao estreitar laços com o Brasil, garantindo segurança alimentar, sustentabilidade e diversificação de fornecedores. Para isso, é essencial que o Brasil continue aprimorando seus mecanismos de rastreabilidade, certificação e governança da produção agropecuária e da proteção ambiental, atendendo às exigências do mercado europeu e consolidando sua posição como parceiro confiável, comunicando com mais transparência e eficácia as realizações por meio de relações diplomáticas e comerciais. Tais iniciativas poderiam aproximar as expectativas europeias da realidade brasileira, promovendo maior transparência e fluidez nas relações comerciais.

Roberto Azevedo, ex-diretor geral da Organização Mundial do Comércio, tem defendido que, para que o Brasil possa continuar a crescer e se destacar no setor agropecuário considerando os mercados internacionais, é essencial haver uma regulação interna robusta, uma visão de longo prazo compartilhada entre os diferentes atores do setor e uma transparência baseada em ciência.

Seguindo essa mesma linha de pensamento, a colaboração em inovação tecnológica oferece um enorme potencial. O Brasil já lidera em práticas como a integração de sistemas agrícolas e a utilização de biofertilizantes, com excelência em pesquisa e desenvolvimento de sementes, biodefensivos e tecnologias de monitoramento e cuidados com as produções agrícolas, adaptados para os inúmeros biomas do país. Por sua vez, a Europa hoje mantém rígidos controles em governança ambiental e energia renovável. Juntos, poderiam liderar o desenvolvimento de tecnologias capazes de reduzir emissões e aumentar a eficiência no uso de recursos naturais.

A União Europeia e seus cidadãos não ignoram as críticas que recaem sobre o agronegócio brasileiro, que reforçam muitas manifestações públicas em defesa dos produtores e mercados locais. Apoiar o Brasil não deve significar compactuar com práticas inadequadas, mas sim engajar-se em esforços para promover avanços. Incentivos financeiros para iniciativas de recuperação ambiental, aferição de valor aos créditos de carbono. E compromissos claros de redução de emissões podem alinhar interesses e fortalecer a confiança mútua.

Afastar-se do Brasil, entretanto, seria uma escolha equivocada. O isolamento não resolve os desafios ambientais e sociais, mas reduz a capacidade de influenciar mudanças positivas. Ao invés disso, a Europa deveria assumir um papel de liderança e proatividade, engajando-se em uma relação que valorize o progresso já realizado pelo Brasil e promova transformações ainda mais profundas.

Essa parceria deve ser construída sobre os pilares da transparência, da inovação e da responsabilidade compartilhada. O Brasil tem mostrado que é capaz de produzir em escala global enquanto melhora suas práticas ambientais. A Europa, com sua longa tradição de liderança em sustentabilidade, pode ajudar a acelerar esse processo, transformando desafios em oportunidades.

O futuro da agricultura global depende de alianças estratégicas como essa. Brasil e Europa têm a chance de liderar um movimento que equilibre produtividade, preservação ambiental e justiça social. Esse é um caminho que exige pragmatismo, mas que pode oferecer benefícios duradouros para agricultores, consumidores e para o planeta. Essa é a parceria que o momento exige.

 
Gustavo Diniz Junqueira
Gustavo Diniz Junqueira é empresário e atua nos conselhos de administração do fundo Exagon, da Alper Seguros, da AgriBrasil e da Capturiant. Foi secretário estadual de Agricultura em São Paulo 
Fonte: Revista Veja
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